Transfiguração do Senhor – Ano A

O Brilho sem Espetáculo: A Luz do Bom Jesus Transfigurado

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

O filósofo francês Guy Debord, ao interpretar a cultura contemporânea, descreveu-a como «sociedade do espetáculo»: um mundo saturado de imagens e representações que ofuscam a vida real, instaurando o reinado da aparência sobre o ser. A liturgia da Transfiguração, porém, nos conduz a uma direção radicalmente diferente. Ela não parte de uma imagem sedutora, mas do corpo ferido de um homem: flagelado, coroado de espinhos, vestido com um manto escarlate, cuspido e humilhado. No Bom Jesus, a realidade aparece sem máscaras. Ali não há espetáculo, mas verdade. Ali se revela que não existe glória sem cruz, nem luz sem antes atravessar a noite da dor. Se o espetáculo aliena, o corpo do Crucificado desvela – com crueza e beleza – o que é real, o que permanece, o que salva.

São Paulo dirá que esta é a sabedoria escolhida por Deus para confundir o mundo: a sabedoria da cruz, que desmonta os mecanismos de aparência, poder e mentira. A Transfiguração é o instante em que Jesus rasga o véu da superficialidade e revela aos discípulos o sentido profundo de sua missão: serviço, humildade, amor: tudo aquilo que a sociedade do espetáculo tenta ocultar.

O evangelho começa com uma indicação temporal carregada de simbolismo: «seis dias depois». No sexto dia, Deus criou o ser humano. Agora, Jesus conduz Pedro, Tiago e João para uma nova criação. Ele quer recriar o coração humano, inserindo a obra mais bela de Deus – o homem – no mistério da cruz. Por isso os leva a uma montanha elevada, lugar bíblico da revelação, e ali se transfigura. A luz que irrompe não é aparência, não é espetáculo: é a própria realidade divina, aquela que estava velada pela carne e que agora brilha para educar o olhar dos discípulos.

A presença de Moisés e Elias é decisiva. No Antigo Testamento, ambos falaram com Deus. Agora, falam com Jesus: é a forma simbólica de afirmar que Jesus é Deus. Os evangelistas revelam o conteúdo da conversa: falavam sobre a paixão. A plenitude da divindade de Cristo não se manifesta em glórias humanas, mas no caminho da cruz. A experiência cristã segue este itinerário: nasce na Sexta-Feira Santa, amadurece no silêncio do Sábado Santo e triunfa na Páscoa. A sociedade da aparência rejeita este percurso. Ela quer a glória sem cruz, o poder sem serviço, o brilho sem verdade.

Pedro, ainda prisioneiro de uma lógica antiga, deseja construir três tendas: uma para Jesus, outra para Moisés e outra para Elias. Ele coloca Moisés – a Lei – no centro. Ainda não compreende que Jesus veio libertar da opressão da Lei, do peso das normas, da religião do dever e do medo. Por isso o Pai intervém: «Este é o meu Filho amado… escutai-o.» Não é Moisés nem Elias que devem ser escutados. É Jesus. Ele inaugura um projeto novo, que não se sustenta em regras nem em prestígio, mas no amor que se entrega.
Os discípulos caem por terra, tomados de medo. Jesus, porém, se aproxima. Não os repreende. Não os corrige com a Lei. Não os humilha com culpa. Ele toca. Ele levanta. Ele cura. O toque de Jesus é o sacramento da misericórdia. Ele continua acreditando em nós mesmo quando ainda não compreendemos a profundidade da sua nova criação.

E então surge a pergunta decisiva: estamos vivendo na luz nova do Bom Jesus? Os soldados de Pilatos tentaram transformar Jesus num espetáculo grotesco, um «rei» de mentira. A sociedade do espetáculo continua fazendo isso conosco: rouba nossa dignidade, nos reduz à aparência, nos faz rastejar em busca de glórias vazias. Mas o Bom Jesus nos liberta dessa ilusão. Sua cruz – e somente ela – revela a verdade da vida. Seu corpo flagelado é a luz que desmascara a superficialidade. Ele continua nos tocando, como tocou Pedro, Tiago e João. Continua nos chamando a levantar, a sair das trevas da aparência e entrar na luz da sua cruz, a única luz que não engana, a única glória que salva.