O Deus da brisa leve e da mão estendida
P. Ademir Guedes Azevedo, cp
O medo é um dos maiores inimigos da vida espiritual. Ele sufoca a confiança, distorce a imagem de Deus e contamina tanto as relações humanas quanto a relação com o transcendente. Quando o medo governa o coração, Deus deixa de ser Pai e passa a ser visto como um patrão irritado, sempre cobrando pureza, sempre exigindo perfeição. Essa mentalidade antiga, que fazia dos sacrifícios um meio de aplacar a ira divina, ainda resiste em muitos cristãos. Mas Deus pode ser manipulado por nossas oferendas? Pode o amor ser comprado?
A fé cristã responde com um «não» definitivo. Em Jesus, o véu do templo é rasgado; o muro que separava o humano do divino é derrubado. A cruz torna-se ponte: ela atravessa o abismo que nos afastava de Deus e nos dá acesso livre ao coração do Pai. É isso que a Oração Coleta deste domingo proclama com ousadia: «Deus eterno e todo-poderoso, a quem, inspirados pelo Espírito Santo, ousamos chamar de Pai…». Eis a grande novidade trazida por Cristo: não precisamos ter medo de Deus. Ele é Abbá: Pai querido, Pai próximo.
Para descobrir essa paternidade divina, é preciso retirar de Deus as armaduras pesadas que nossa mentalidade projetou sobre Ele. Muitas vezes, atribuímos ao Senhor a dureza que nasce do nosso próprio coração ferido. Por isso vale a regra espiritual: «Diz-me como tratas teu irmão e eu te direi quem é o teu Deus». Na primeira leitura, Deus passa pela história não como tempestade, terremoto ou fogo destruidor, mas como uma brisa leve. Ele recusa nossas imagens grotescas e nosso senso humano de justiça vingativa. O verdadeiro poder de Deus não está na violência, mas na mansidão; não está na força que impõe, mas no amor que se entrega. O escândalo do Deus Crucificado é justamente este: Ele vence amando.
Há cristãos que falam muito de Deus, mas ferem com palavras, humilham, magoam, e ainda assim se consideram discípulos autênticos. Dentro da revelação cristã, não há espaço para agressão, nem física, nem psicológica. Invocar «Abbá» é sempre um grito de paz, nunca de guerra religiosa. Por isso o salmista suplica: «Mostrai-nos, Senhor, a vossa bondade». A fé só amadurece quando reconhecemos essa bondade.

No Evangelho, os discípulos estão tomados pelo medo, sobretudo Pedro. E é justamente nesse cenário que Jesus se aproxima caminhando sobre as águas. Ele não vem apenas para acalmar o vento ou realizar um prodígio; Ele vem para desfazer, dentro de Pedro, a imagem de um Deus violento, guerreiro, vingativo. Pedro ainda carregava no coração um Deus que exige força, que pune, que cobra. Jesus, ao estender a mão, quer que essa imagem caia por terra. Ele deseja que Pedro descubra o Deus Abbá, aquele que o próprio Jesus já havia revelado com sua vida, sua ternura e sua entrega.
Antes disso, porém, Jesus manda os discípulos entrarem na barca (cf. Mt 14,22): símbolo dos nossos desencontros, dos traumas que carregamos, das experiências paternas mal resolvidas, das desilusões que agitam o cotidiano. A vida é travessia, e ninguém atravessa sem entrar na barca. É nela que somos convidados a deixar cair por terra as falsas imagens de Deus que herdamos de catequeses mal-feitas, pregações equivocadas, ambientes religiosos opressores ou educações que não libertaram.
Jesus se afasta um pouco deles (Mt 14,23), não para abandoná-los, mas para que o redescubram de modo novo. Ele quer ser buscado não pelo medo, mas pela confiança; não pela obrigação, mas pela ternura. Somente o Deus Abbá é assim: aquele que socorre quando a barca parece afundar, aquele que chega antes mesmo de ser compreendido. Quando as águas se agitam, descobrimos quem é realmente o Deus da nossa vida. Não é o «deus» que projetamos para nos sentir seguros, nem o «deus» que invocamos apenas na hora do perigo. É o Homem Jesus, que caminha ao nosso encontro sobre as águas do caos, que segura nossa mão quando começamos a afundar, que nos ensina que fé não é controle, mas entrega.
Ninguém atravessa esta vida sem se banhar nas águas do sofrimento. Mas quem atravessa com Jesus descobre que o medo não tem a última palavra. A última palavra é sempre a mão estendida do Abbá.