De punhos fechados a mãos abertas: a conversão da fome
P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
A liturgia deste domingo nos lança diante de uma pergunta que atravessa a alma como lâmina: o que dá sentido à vida? Para quem e para quê eu existo? Essas perguntas não são opcionais. Elas brotam da própria condição humana: somos um projeto aberto, inquieto, sempre à procura de algo que nos sacie. Somos seres famintos. Mas a forma como saciamos essa fome pode nos elevar à plenitude ou nos arrastar para a degradação. Há uma diferença abissal entre devorar e alimentar-se com verdadeira saciedade.

A primeira leitura é um grito amoroso de Deus contra nossas escolhas vazias: «Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo» (Is 55,2). É como se Deus dissesse: Vocês estão morrendo de fome com a mesa cheia de migalhas.
A lógica da sobrevivência individual, tão celebrada pelo mundo, nos empurra para um desperdício brutal de energia, para a busca frenética de coisas que não alimentam, não pacificam, não constroem. Assim, o sonho de Deus, onde cada ser humano é irmão, não competidor, vai sendo sufocado. Quando o coração se afasta da Fonte que sacia gratuitamente, ele se entrega ao mercado da ilusão e acaba escolhendo pão podre, incapaz de tocar a fome mais profunda.
É aqui que o Evangelho irrompe como luz: ele reeduca nossa fome. Ele nos ensina que o verdadeiro alimento nasce da partilha e da compaixão. Esses dois gestos são o DNA da vida de Jesus, o núcleo de sua missão, o convite para abandonarmos o estilo que devora e abraçarmos o estilo que acolhe: entrega, empatia, ternura, presença.
As duas posturas — devorar ou partilhar — ganham rosto em Herodes e em Jesus. Herodes oferece um banquete fechado, sufocado por vaidade e violência. Na bandeja do rei não há pão, mas a cabeça de João Batista. É o banquete da morte, da fome que nunca se sacia, da vida que se alimenta destruindo o outro.
Jesus, ao contrário, toma o pão, abençoa-o e o reparte. De mão em mão, o alimento circula até que todos se sintam saciados. Aqui está o verdadeiro milagre: a multiplicação dos corações que se abrem. É o projeto de Deus: um mundo onde ninguém devora ninguém, porque todos se alimentam juntos.
A compaixão é o motor que move Jesus ao encontro da nossa fome. Ele é o único capaz de saciar-nos. Por isso, o alimento que realmente sustenta, como dizia São José de Anchieta: «não se vende em praça, este pão da vida, porque é comida que se dá de Graça». Ou melhor: Ele é a Graça que precisamos para viver bem.
O estilo de vida baseado na partilha e na compaixão abre nossas mãos. Herodes vivia de punhos fechados, por isso devorava, esmagava, matava. Quem fecha as mãos, fecha também o coração. Quem abre as mãos, abre a vida.
A fome que carregamos, seja ela qual for, só será saciada quando nosso ser desabrocha para os outros. Uma existência que gira em torno de si mesma apodrece. Que Deus nos livre dessa doença. Que Ele nos dê o pão que sacia e o coração que reparte.