XII Domingo do Tempo Comum – Ano A

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

Meditação

Há uma palavra que atravessa os séculos e continua a ressoar com a mesma força com que saiu dos lábios de Jesus: «Não tenhais medo». Três vezes o Evangelho deste domingo repete esse apelo, como se quisesse gravá-lo no mais íntimo do coração dos discípulos. E não é por acaso. Desde o início do cristianismo, seguir Jesus significou enfrentar resistências, incompreensões e perseguições. O próprio Senhor viveu sob o ódio do mundo. Ainda assim, caminhou firme, sustentado por três irmãs inseparáveis: a fé, a esperança e a caridade. São elas que dão vigor, coragem e parresia aos que desejam permanecer fiéis.

O medo, quando domina, paralisa. Ele sufoca os sonhos, diminui a força interior, distorce a realidade e nos convence de que não somos capazes. Por isso o Evangelho é Boa Notícia: ele irrompe dentro da história humana para reorientá-la, para lembrar que a última palavra não pertence às trevas, mas à vitória de Cristo. A segunda leitura (Rm 5,12-15) confirma: a Graça de Deus se derramou em abundância sobre todos. Há, sim, forças que ameaçam e desfiguram a beleza original da criação; mas há também uma ação divina constante, fiel, silenciosa e sempre a nosso favor. Por isso o medo não pode triunfar.

Durante muito tempo, o ser humano temeu sobretudo as ameaças externas: tempestades, guerras, catástrofes. Hoje, porém, uma nova forma de ameaça se impõe – mais sutil, mais íntima, mais devastadora: a autoexploração. Vivemos numa sociedade que idolatra o desempenho. O sujeito moderno se cobra, se vigia, se exige, se esgota. Trabalha demais, dorme pouco, ama menos. O outro deixa de ser alteridade e passa a ser obstáculo ou concorrente. A vida se transforma numa corrida sem linha de chegada. E, mesmo quando alcança o que desejava, o sujeito não descansa. Permanece inquieto, vazio, com medo de não ser suficiente.

Esse cenário produz uma epidemia silenciosa: depressão, ansiedade, pânico, aceleração constante. A alma se torna um campo de batalha. E o medo – medo de falhar, de perder, de não corresponder – torna-se companheiro diário.

É justamente neste mundo ferido e acelerado que a voz de Jesus ressoa com ainda mais força: «Não tenhais medo!»

Não tenhais medo de reencontrar o centro da vida, de viver sem competir, sem esmagar o outro, sem transformar a existência numa maratona de resultados. Não tenhais medo: a vida pertence a Deus, não ao nosso ego inquieto. Não tenhais medo: o mundo não tem poder de sufocar os sonhos que Deus plantou em nós. Não tenhais medo: o Senhor da vida caminha ao nosso lado, não o tirano interior que exige perfeição.

Jesus nos convida a olhar para a cruz. Ali está o verdadeiro sucesso: não o que nasce da competição, mas o que brota da entrega. A cruz revela que a vida se realiza quando se faz dom, não quando se busca desempenho. Por isso, quanto mais tentamos provar nosso valor, mais nos frustramos; quanto mais corremos atrás de resultados, mais nos sentimos vazios.

A oração da coleta deste domingo nos recorda: «Nunca cessais de conduzir os que firmais solidamente no vosso amor». A verdadeira solidez não nasce de nossos projetos humanos – frágeis, instáveis, passageiros -, mas da confiança radical em Deus, que não falha, não abandona, não desiste.

Por isso, hoje, Jesus repete a cada um de nós: Não tenhais medo. Não tenhais medo de ser quem sois diante de Deus. Não tenhais medo de descansar n’Ele. Não tenhais medo de viver com leveza, com verdade, com liberdade. Não tenhais medo de deixar que Ele conduza.