Assunção de Nossa Senhora

Entre telas e eternidade: o olhar que Maria nos devolve

Meditação na solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria – Ano de 2026

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

A segunda leitura deste domingo nos oferece a chave para compreender a grandeza da Assunção: «Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morrem» (1Cor 15,20). Se Ele é as primícias, Maria é o primeiro fruto plenamente amadurecido. Nela contemplamos o destino que Deus sonhou para toda a humanidade: a vida não termina em tragédia, mas se abre para a plenitude. A Assunção é, antes de tudo, cristocêntrica; é Cristo quem eleva, quem glorifica, quem cumpre. E Maria, criatura por excelência, é a prova viva de que fomos feitos para participar da própria vida divina. Por isso ela canta: «O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor» (Lc 1,49).

Nossa civilização ocidental deseja ardentemente a imortalidade, mas rejeita a transcendência. Tem sede de infinito, mas busca saciar-se em poços que secam. A modernidade acreditou que o engenho técnico-científico bastaria para construir um novo Éden: saúde, educação, tecnologia, ciência, conforto. Porém, esse império, que parecia tão sólido, ruiu diante de guerras, pandemias, agressões à natureza, vazio existencial e confusão interior. O homem moderno tornou-se ousado, mas frágil; poderoso, mas inquieto; informado, mas desorientado. A liturgia de hoje nos ajuda a recolher os cacos dessa existência fragmentada. Recorda-nos que, embora o mundo material ofereça vantagens, ele não pode ser o horizonte último da vida. Se nos fixamos apenas nele, reduzimo-nos a instintos, perdemos a direção, esquecemos que fomos feitos para «as coisas do alto». A oração coleta nos desperta: «Dai-nos viver sempre atentos às coisas do alto para merecermos participar de sua glória».

Para onde dirigimos o olhar? Em que concentramos nossa atenção? Maria canta porque Deus olhou para a sua humildade (cf. Lc 1,48). O olhar divino a transformou. E nós, na mudança de época em que vivemos, perdemos a capacidade de contemplar. Somos arrastados por imagens, vídeos, estímulos incessantes. Trocamos a ternura daquele olhar eterno por telas que nos oferecem apenas sombras da realidade. Se Platão estivesse entre nós, talvez se indignasse ao ver a humanidade retornar à caverna fascinada por imagens, incapaz de perceber a luz da verdade. Para onde queremos ir com um estilo de vida tão frenético, que não nos permite sentir o frescor que vem do alto? Maria sentiu esse frescor desde o início. Por isso guardava tudo no coração: porque sabia parar, acolher, contemplar.

A Assunção revela também duas características essenciais da humanidade nova que Deus deseja para nós. A primeira é transformar a fé em ação. Maria, ao receber o anúncio, não se fecha em si mesma: parte apressadamente para visitar Isabel (cf. Lc 1,39). A nova humanidade não é veloz por ansiedade, mas por disponibilidade. Não corre para fugir, mas para servir. A pressa de Maria é a pressa do amor. A segunda característica é a alegria que contagia. Quando Maria encontra Isabel, a alegria explode: João Batista estremece no ventre (cf. Lc 1,41). A verdadeira vida não se realiza no isolamento, mas no encontro. A cultura atual, tão centrada em si mesma, vive em agonia porque perdeu a capacidade de sair de si. A alegria do encontro é sempre gratuita: nenhum tesouro material pode comprá-la.

Neste domingo, tente simplesmente alegrar-se pela presença de alguém. Olhe nos olhos, escute, esteja. Cristo viveu assim: entre pessoas concretas, alegrando-se e chorando, tocando e sendo tocado. Ele nos arrastou para essa vida nova. Maria entrou nessa caravana e, por isso, foi elevada ao céu. A Assunção nos garante que a nossa humanidade também será elevada. O destino de Maria é promessa para nós. Onde ela está, nós também seremos chamados a estar: bem perto de Deus, na plenitude para a qual fomos criados.