Uma formação para neurodivergentes nos seminários e casas de formação? – II

Fatores filosóficos e culturais

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

Conforme afirmei no primeiro artigo, nesta segunda parte vamos aprofundar brevemente o que, filosoficamente, está acontecendo no mundo ocidental que pode favorecer – não digo que causa diretamente – um estado de neurodivergência no desenvolvimento do homem de hoje. Para elucidar a minha hipótese busco suporte em dois pensadores, a saber: Gianni Vattimo (1936-2023) e Byung-Chul Han. Neste artigo, me concentro apenas em Vattimo.

Gianni Vattimo tornou-se conhecido pela expressão pensiero debole (pensamento frágil ou pensamento débil). Sua proposta consiste em criticar a tradição metafísica ocidental e suas grandes narrativas universalizantes, que durante séculos ofereceram ao homem referências estáveis para compreender a realidade.

Na Antiguidade, esse horizonte era sustentado pela busca de um princípio supremo, do Bem ou da Verdade, concebidos como realidades objetivas que transcendiam o indivíduo. Durante a Idade Média, Deus ocupava esse lugar como fundamento último da existência e da ordem do mundo. Em ambos os casos, a vida humana era compreendida a partir de uma referência superior capaz de oferecer direção, sentido e estabilidade.

Segundo Vattimo, entretanto, a modernidade assistiu ao progressivo enfraquecimento dessas estruturas geradoras de sentido. Em sua interpretação do cristianismo, a kénosis de Cristo, seu esvaziamento, simboliza precisamente o abandono dos modelos fortes de fundamentação. A verdade deixa de ser entendida como algo imposto de cima para baixo e passa a surgir no diálogo das diferentes interpretações.

Desse modo, Vattimo valoriza a pluralidade, a diversidade de perspectivas e a crítica a toda forma de pensamento que pretenda se apresentar como absoluto. Para ele, discursos únicos e homogêneos tendem a converter-se em instrumentos de dominação. A fragilidade das certezas abre espaço para a voz do diferente, do marginalizado e daquele que historicamente foi excluído dos processos de construção da verdade.

As transformações culturais das últimas décadas parecem confirmar esse diagnóstico. O surgimento das redes sociais, por exemplo, ampliou significativamente a possibilidade de expressão individual. Hoje, múltiplas narrativas disputam legitimidade, e já não existe uma instância amplamente reconhecida capaz de organizar de forma consensual o significado da realidade.

O pensamento de Vattimo possui inegável originalidade e trouxe contribuições importantes para a valorização da diversidade. Contudo, uma questão permanece em aberto: o ser humano está preparado para viver em um horizonte permanentemente marcado pela fluidez, pela multiplicidade de interpretações e pela ausência de referências estáveis?

Essa pergunta é importante porque a fragilidade das certezas pode ter consequências antropológicas relevantes. Quando nenhum significado se apresenta como suficientemente sólido, cresce também a experiência da insegurança, da dúvida e da instabilidade existencial. Não se trata de afirmar uma relação causal direta entre o pensamento de Vattimo e os fenômenos contemporâneos ligados à saúde mental. A questão é outra: será que o ambiente cultural produzido pelo declínio das referências fortes não favorece o surgimento de formas cada vez mais intensas de ansiedade, desorientação e sofrimento psíquico?

É nesse ponto que surge nossa hipótese. Talvez o crescimento de determinados quadros presentes entre muitos jovens de hoje não possa ser compreendido apenas por fatores biológicos ou psicológicos. Talvez seja necessário considerar também o contexto filosófico e cultural no qual essas novas gerações foram formadas. Se essa hipótese for plausível, então o fenômeno da neurodivergência precisa ser analisado não apenas à luz da medicina e da psicologia, mas também das profundas transformações na maneira como o Ocidente atualmente está compreendendo a verdade, a identidade e o sentido da existência.

Se, na época da metafísica, a busca de sentido estava ancorada em um princípio exterior ao homem, seja o Sumo Bem, a Verdade ou Deus, o enfraquecimento dessas referências deslocou essa tarefa para o próprio sujeito. Sem um fundamento transcendente amplamente reconhecido, o indivíduo passou a procurar em si mesmo aquilo que antes encontrava fora de si: identidade, validação, direção e sentido para a existência. Entretanto, ao transferir para si uma responsabilidade antes sustentada por referenciais estáveis, o sujeito contemporâneo parece submeter-se a uma crescente sobrecarga emocional e psicológica. Surge, então, uma nova questão: quais são as consequências dessa exigência permanente de autoconstrução? É precisamente esse ponto que será desenvolvido no próximo artigo, a partir da reflexão de Byung-Chul Han, cuja análise da sociedade do desempenho pode oferecer elementos importantes para aprofundar nossa hipótese acerca da neurodivergência.