Santidade: a melhor versão do ser humano
P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
A vida cristã é uma caminhada permanente de transformação. Viver é deixar-se purificar. É permitir que Deus, dia após dia, vá lapidando nossa humanidade até que ela reflita algo da beleza do próprio Cristo. Cada gesto de amor, cada ato de fidelidade, cada esforço sincero para viver o Evangelho santifica o nome de Deus no mundo e, ao mesmo tempo, santifica a nossa própria existência. Por isso rezamos diariamente: “Santificado seja o vosso nome”. A santidade não acontece de uma vez; ela amadurece silenciosamente no cotidiano. Como recorda a segunda leitura: “Todo o que espera nele, purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (1 Jo 3,3).
Entretanto, dentro do mistério da revelação divina, a santidade possui algo de desafiador e até mesmo perigoso. Não porque afaste a pessoa do mundo, mas porque a mergulha mais profundamente nele. O santo não foge da história; entra no coração dela. E quem escolhe levar a sério o caminho da santificação inevitavelmente encontra incompreensões, feridas, perseguições, calúnias, rejeições e conflitos. O mundo frequentemente resiste à luz porque ela revela o que precisa ser transformado.

Esta dimensão aparece de maneira impressionante na visão do Apocalipse: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro” (Ap 7,14). O sangue do Cordeiro é a vida de Jesus entregue totalmente por amor. É nesta entrega radical que todo ser humano encontra a fonte de sua própria santificação. Tornamo-nos santos quando nossa vida começa a assumir algo da forma de viver de Cristo: amar sem medida, servir sem esperar recompensa e permanecer fiéis mesmo em meio às dificuldades.
Durante muito tempo, alguns grupos dentro da Igreja imaginaram a santidade como um caminho reservado apenas aos que abandonavam tudo para entrar num convento ou mosteiro, professando os votos de castidade, pobreza e obediência. Evidentemente, esta vocação continua sendo uma expressão belíssima de seguimento de Cristo. Contudo, hoje compreendemos com maior clareza que ela é apenas uma entre muitas estradas que conduzem à santidade.
A santidade floresce também nas casas, nas famílias, nos locais de trabalho, nas escolas, nas ruas e nas comunidades. Ela nasce no ordinário da vida. Por isso o Evangelho apresenta Jesus ensinando as multidões sobre a montanha (cf. Mt 5,1-12). O Senhor não está trancado num espaço reservado a poucos. Ele está acessível a todos. Qualquer pessoa pode aproximar-se dele.
Jesus não age como alguém que estabelece barreiras entre Deus e o povo. Ao contrário, revela um Deus de portas abertas, um Deus que não faz distinção de pessoas e que oferece sua graça a todos. É esta revolução espiritual que ressoa nas Bem-aventuranças. Ali, Jesus proclama felizes aqueles que o mundo raramente considera vencedores: os pobres, os aflitos, os mansos, os famintos de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os promotores da paz e os perseguidos.
As Bem-aventuranças são o retrato da verdadeira santidade. Nelas descobrimos que ser santo não é tornar-se menos humano, mas plenamente humano. A santidade é a obra de Deus aperfeiçoando em nós aquilo para o qual fomos criados desde o início. É o nascimento contínuo de uma nova versão de nós mesmos, cada vez mais próxima do sonho que Deus sonhou para nossa vida.
Por isso, nenhum ser humano pode ser reduzido aos julgamentos que os outros fazem dele. Você não é a versão que os outros imaginam, rotulam ou tentam aprisionar. Quem se deixa transformar por Deus possui uma identidade mais profunda do que qualquer crítica, acusação ou incompreensão. Sua essência não cabe nas prisões construídas pelas expectativas alheias.
As Bem-aventuranças nos ensinam exatamente isso: nada tem poder para diminuir a dignidade de quem vive em Deus. Nem a dor, nem a perseguição, nem o fracasso, nem a tribulação. O discurso de Jesus é um convite à coragem. É uma convocação à esperança. É a certeza de que a história caminha para um horizonte de plenitude, mesmo quando atravessamos vales escuros.
A solenidade de Todos os Santos nos recorda que a santidade não é uma exceção. É o destino para o qual todos fomos criados. Ela começa agora, nas pequenas escolhas de cada dia, e amadurece até encontrar sua plenitude em Deus.
Por isso, apesar das lutas, das lágrimas e das tribulações, a última palavra não pertence ao sofrimento. A última palavra pertence ao Evangelho. A última palavra pertence à esperança. A última palavra pertence a Cristo.
A última palavra é: felizes!