A vítima livre que ama
P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
Há um fio de ouro que atravessa toda a liturgia deste domingo: a liberdade. Não uma liberdade ruidosa, mas aquela que se move silenciosa, profunda, quase imperceptível, tão sutil que muitos pregadores talvez se detenham apenas na correção fraterna. Mas a correção fraterna nasce da liberdade. Só quem é livre, verdadeiramente livre em Cristo, possui a força interior capaz de tocar outro coração e conduzi-lo a um novo caminho. Por isso a oração coleta implora ao Pai: «concedei aos que creem no Cristo a verdadeira liberdade».
Essa súplica é um grito. Um clamor por uma liberdade que não é política, nem filosófica, nem fruto de sistemas humanos. O Ocidente celebra a democracia como conquista, mas essa liberdade é grega, não cristã. José Comblin nos lembra que Paulo conhecia bem essa influência, mas a ultrapassou. O referido teólogo recorda que a liberdade cristã não instaura a ordem, mas a desordem. Não porque destrói, mas porque rompe a lógica do mundo para instaurar a lógica de Deus. O mundo funciona pelo cálculo: dou para receber; faço o bem esperando retorno. Cristo, porém, inaugura outra dinâmica: amar quem não ama, doar-se a quem não merece, levantar quem não consegue retribuir. A liberdade cristã é essa força que desestabiliza o equilíbrio artificial do status quo e abre espaço para o extraordinário de Deus.

É nesse terreno que o Evangelho coloca a correção fraterna: «Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo» (Mt 18,15). A iniciativa não vem do culpado, mas da vítima. Isso é desconcertante. A parte ferida é quem possui autoridade para salvar quem a feriu. A vítima se torna instrumento de conversão do agressor. Esse é o maior ato de liberdade que existe: levantar-se não para revidar, mas para resgatar. Foi exatamente isso que Jesus fez na cruz. Ele, a grande vítima da humanidade, suplicou perdão aos seus carrascos. Pediu que nenhum deles se perdesse. Amou onde ninguém mais seria capaz de amar.
A liberdade cristã rompe a normalidade porque vem do alto, mas se encarna no chão da vida. Quando isso acontece, o ordinário se ilumina, o cotidiano se transfigura, e o sublime de Deus irrompe na convivência humana. Essa liberdade sustenta a correção fraterna e vai além da justiça. O Evangelho diz que, se o agressor não se converter, seja tratado como «pagão ou pecador público» (Mt 18,17). Mas Jesus tratou pagãos e pecadores com ternura infinita. Aqui está o coração da assimetria: amar mesmo quando o outro não ama; perdoar mesmo quando o outro não pede; acolher mesmo quando o outro rejeita.
Por isso Paulo afirma com tanta força: «O amor não faz nenhum mal contra o próximo» (Rm 13,10) A verdadeira liberdade cristã é essa força que desarma, que quebra correntes invisíveis, que transforma feridas em portas de reconciliação. Ela não exige retorno, não calcula, não negocia. Ela simplesmente ama. E quando a liberdade ama, ela salva. Quando a liberdade corrige, ela reconstrói. Quando a liberdade se doa, ela transforma vítimas em testemunhas e agressores em irmãos reencontrados.