A Cruz: expressão perfeita do Amor divino
P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
Qual é, afinal, o coração pulsante da mensagem de Jesus? Em meio ao turbilhão de informações que molda nossa época, onde todos parecem saber tudo, onde cada verdade disputa espaço com outras verdades, o risco é que o Evangelho se torne apenas mais uma voz, mais um conteúdo, mais uma opinião. Mas para quem se decide caminhar como cristão, Jesus não é um acréscimo: Ele é a Verdade que ilumina todas as outras realidades. Por isso, a liturgia deste domingo não se curva à subjetividade; ela a purifica, a orienta, a reconduz ao essencial. E o essencial é este: o caminho da cruz é o critério que revela se somos discípulos ou apenas simpatizantes de Jesus.

O diálogo entre Jesus e Pedro torna isso evidente. Pedro recusa a cruz e sua recusa é profundamente humana. A cruz romana era o símbolo máximo da crueldade, da humilhação, da morte sem dignidade. Como esperar que alguém que ama o Mestre aceite que Ele caminhe para isso? No entanto, essa resistência revela que os discípulos ainda não compreendiam o projeto do Pai. Para «estreitar os laços com Deus», como suplica a oração coleta, é preciso abraçar a vida inteira: suas luzes e suas sombras, seus risos e seus prantos. A subjetividade contemporânea, tão empenhada em evitar qualquer dor, criou mecanismos de defesa que nos protegem, mas também nos cegam. Cegam-nos para o fato de que o sofrimento é parte da condição humana, e que ignorá-lo é ignorar também o clamor do outro.
Por isso, quando Jesus nos chama a renunciar a nós mesmos e carregar a própria cruz, Ele não está exaltando o sofrimento, mas convocando-nos à responsabilidade e à solidariedade. A cruz, no cristianismo, não é mais o instrumento de morte: é o lugar onde o amor se revela em sua forma mais pura. É tão novo, tão inesperado, tão desconcertante, que provoca espanto, o mesmo espanto que os gregos experimentavam diante do belo e do verdadeiro.
Jeremias, na primeira leitura, experimenta essa sedução divina que o torna estranho aos olhos dos outros. Ele é ridicularizado, rejeitado, incompreendido. Mas dentro dele arde um fogo que não pode ser contido. É maior que ele. É Deus. Esse fogo também ardia em Jesus: o fogo da compaixão, o fogo do amor que não calcula, que não exige retorno, que não se protege. O fogo do ágape.
Os discípulos ainda não entendiam esse fogo. Talvez nós também não entendamos. Mas é esse fogo que dá sentido à cruz. Jesus abraça a cruz porque nela se manifesta a vontade do Pai: salvar o mundo por um amor que não pede nada em troca. Ele perde a vida para encontrá-la, e ao fazê-lo revela que a verdadeira vida não é posse, mas entrega.
Tomar a cruz e seguir Jesus é entrar nesse movimento de amor gratuito. É deixar que o ágape nos desloque do centro, para que o outro encontre espaço em nós. É permitir que Deus nos seduza, como seduziu Jeremias, como inflamou Jesus, como transformou tantos discípulos ao longo da história. É a marca cristã no mundo: um amor que resiste ao excesso de subjetividade e abre os olhos para a vida, não apenas a nossa, mas a do próximo.
Seguir Jesus é, portanto, uma pedagogia divina: Ele nos ensina a ver, a sentir, a discernir o que realmente vale a pena. E o que vale a pena é sempre o amor que se doa: é a cruz abraçada por Amor.