A pergunta que desinstala e a chave para o Deus vivo
P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
Por toda parte, especialmente em sociedades moldadas pelo cristianismo, como a nossa, o nome de Jesus ecoa sem cessar. Nunca se falou tanto dele. Nunca se comercializou tanto sua imagem. Pregadores inflamados, teologias de todos os matizes, movimentos, ciclos de oração, plataformas digitais: Jesus tornou-se um produto rentável, um negócio lucrativo. Mas esse Jesus que circula nas vitrines da fé é realmente o Jesus da Revelação?
Seu nome, tão repetido, parece já não causar espanto. Amamo-lo, sim, mas de que natureza é esse amor? Um amor romântico, sentimental, que arranca lágrimas fáceis? Ou um amor configurado às suas pegadas, marcado por risco, tensão, discernimento, coragem? O Jesus que proclamamos carrega a cruz, mas ainda provoca que carreguemos a nossa? Ou preferimos apenas repetir: «Jesus, como é doce e lindo o teu nome», sem permitir que essa doçura seja atravessada pelo fogo da verdade?
A liturgia deste domingo nos coloca diante de uma urgência: precisamos de uma virada substancial na fé, um deslocamento interior que nos conduza ao Jesus real, não ao Jesus moldado por nossos desejos, nem ao Jesus caricaturado por nossas fantasias religiosas. É nesse ponto que irrompe a pergunta mais perigosa e mais decisiva, dirigida não aos outros, mas a nós que vivemos diariamente dentro das estruturas da Igreja, que professamos com os lábios: «Creio em Jesus Cristo, seu único Filho». A pergunta que nos atravessa é esta: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (Mt 16,15).

Essa pergunta não se responde com belas teologias. Elas ajudam, mas não alcançam o alvo. Podemos formular definições, repetir dogmas, construir edifícios mentais, mas talvez seja justamente esse edifício que precisa ruir. Talvez seja necessário deixar cair por terra nossas certezas pré-concebidas, desmontar o Jesus que criamos para, lentamente, reencontrar o Jesus que se revela.
A primeira leitura lança uma luz preciosa: Deus coloca sobre os ombros de Eleacim a chave da casa de Davi e o fixa como estaca em lugar seguro (cf. Is 22,22-23). A chave, símbolo de autoridade, discernimento e fidelidade, é também entregue a Pedro, mas somente depois que ele professa a fé no Deus vivo, não no deus das fantasias religiosas.
No início do cristianismo, essa profissão de fé petrina foi revolucionária. Ela rompeu com o universo religioso romano, onde cada aspecto da vida tinha seu deus, e a estabilidade social dependia da pax deorum, a paz com as divindades. Os cristãos surgem, então, com uma fé subversiva: anunciam o Deus verdadeiro, sem imagens, sem sacrifícios, sem sacerdotes, sem altares construídos por mãos humanas. Um Deus crucificado que derruba muros, que não exige mais sangue de animais, que se instala silenciosamente no coração dos que acolhem sua graça.
Era algo tão misterioso, tão profundo, tão desconcertante, que Paulo, na segunda leitura, só consegue maravilhar-se: «Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Quem conheceu o pensamento do Senhor?» (Rm 11,33-34).
Um Deus que nenhuma linguagem humana pode conter. Um Deus que não se explica: se adora. Um Deus que não se manipula: se contempla. Um Deus que não se negocia: se acolhe.
Talvez nossas eucaristias dominicais precisassem recuperar esse silêncio reverente, essa mistagogia que abre espaço para o espanto, para o deslumbramento, para o mistério. Porque só diante do silêncio nasce a verdadeira resposta à pergunta de Jesus. E só quem se deixa atravessar por essa pergunta pode finalmente dizer, não com os lábios, mas com a vida: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.