A ditadura «pornô» na Igreja

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

A revolução tecnológica, com toda a sua complexidade, molda profundamente o homem ocidental contemporâneo. É nesse ambiente que respiramos, pensamos e agimos, configurando um estilo de vida marcado pela velocidade, pela exposição e pela primazia do momentâneo. A tecnologia, com seu crescimento aparentemente ilimitado, tornou-se uma indústria sem fronteiras, movida por algoritmos que multiplicam incessantemente nossas buscas e desejos. Nesse contexto, a pornografia surge como expressão emblemática – e degradante – dessa cultura, apresentando-se como uma espécie de ditadura disfarçada de liberdade. Em que sentido?

Dois autores contemporâneos ajudam a iluminar essa reflexão: o filósofo Byung-Chul Han e o monge-bispo Erik Varden. Han descreve o caráter invasivo do elemento pornográfico, sua ânsia de devorar e expor tudo, eliminando qualquer véu de mistério. O pornô, afirma ele, é um modo de agir que não respeita a dimensão do mistério, pois retira o véu e despoja a pessoa de sua privacidade. No pornô, «o outro está completamente liquidado. O desejo pornográfico é narcísico. Nasce no consumo imediato do objeto oferecido e desvelado» (O desaparecimento dos rituais, p. 141).

Antes, uma relação exigia tempo, dedicação e convivência. Era preciso entrar na vida do outro, conhecer sua história, suas preferências, sua personalidade. O pornô destrói esse caminho: derruba a cortina do mistério e reduz tudo a exploração rápida, sem interesse pela pessoa envolvida.

Varden, por sua vez, associa o fenômeno pornográfico à perda do rosto – aprosopon -, isto é, da possibilidade de um verdadeiro encontro. Para ele, «o eros pornográfico é unilateral. Não tem como objetivo o encontro, só a autoindulgência. Enraizado em uma mentalidade consumista, encaixa-se facilmente na lógica pela qual nossa sociedade funciona» (Castidade, p. 102).

Diante do ato pornográfico, o outro perde sua alteridade e dignidade. Levinas via no rosto a essência do ser; Varden, como monge trapista, sabe que o encontro verdadeiro exige presença, paciência e perseverança. O pornô, ao contrário, é acelerado, ansioso, explorativo. Quer saciar-se, não encontrar-se. E, ao fazê-lo, gera caos, vazio e angústia.

Mas por que falar em «ditadura pornô» dentro da Igreja? Aqui, o termo é tomado em sentido amplo: o impulso de controlar, dominar, expor e esvaziar de mistério aquilo que deveria permanecer envolto em reverência. Alguns exemplos ajudam a compreender.

Na liturgia, observa-se frequentemente a prevalência do gosto pessoal. Canta-se o que se quer, não o que o mistério celebrado pede. O repertório musical, muitas vezes desconectado do Evangelho dominical, reflete preferências do grupo escalado, não a obediência ao mistério. Lembra a cena de Jonas: Deus o envia a Nínive (obediência ao mistério), mas ele escolhe Társis (prioridade ao subjetivismo). O nosso egocentrismo erótico não pode competir com a vontade de Deus; ao contrário, deveria ser ordenado e educado para servir ao mistério. Na liturgia, um eros desordenado exerce violência extrema sobre o sagrado.

Outro exemplo é a guerra ideológica dentro da Igreja. Narrativas pessoais do Evangelho, desconectadas da teologia e do magistério, são propagadas com veemência nas redes sociais. A unilateralidade pornográfica – aquela que Varden denuncia – reaparece na busca por seguidores, curtidas e influência. Grita-se mais alto, como os profetas de Baal, para atrair atenção. Um eros ordenado, ao contrário, não exalta a figura do mensageiro – personagens midiáticos -, mas faz que estes desapareçam para que a Mensagem apareça. João Batista permanece como modelo daquele que reconciliou sua força interior com o serviço ao Mistério.

Também a eficiência administrativa corre o risco de se tornar pornográfica. A gestão é necessária, mas não pode transformar-se em fim. O impulso de controlar tudo, de produzir sem cessar, de elaborar projetos intermináveis, desfigura a vocação cristã – especialmente a dos presbíteros – e os converte em máquinas de produtividade. Nunca o padre foi tão explorado para alimentar o capital das comunidades. Reformas, festas, eventos e campanhas ocupam seu cotidiano, sufocando a alma contemplativa. A sede de Deus é substituída por viagens, lazer e lucro. Eis a ditadura pornô na Igreja: «faça bem e será bem recompensado». A lógica meritocrática substitui a lógica da Graça. Tudo em nome de um bem-estar, de uma propaganda centrada em torno da máxima «cuide primeiro de si, para cuidar bem do rebanho». Mas recordemos: Jesus, nosso Pastor eterno, não poupou a si mesmo.

Diante dessa ditadura, como permanecer fiel à vocação cristã, que só floresce na paciência e na vida discreta, justamente aquilo que o pornô detesta, pois exige exposição, velocidade e transparência total? Talvez seja necessário recuperar a capacidade de viver o dom sem buscar vantagem, de fazer o bem sem esperar retorno, de agir por beleza e não por utilidade.

O romancista australiano Tim Winton, em Fôlegos, descreve o despertar de um de seus personagens para uma nova dimensão do ser ao ver surfistas pegando onda numa praia: «Não conseguia me expressar na época, mas depois entendi o que tomou conta de minha imaginação naquele dia. Como era estranho ver homens fazendo algo bonito. Algo inútil e elegante, como se ninguém visse ou se importasse».

Fazer algo belo simplesmente porque é belo – sem cálculo, sem recompensa, sem exposição – talvez seja um dos caminhos mais profundos para resistir à ditadura pornô. Para nós, padres, seria um respiro necessário. Para a Igreja, um retorno ao essencial. Para o cristão, um modo de reencontrar o mistério.