P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

O evangelho de João para esta solenidade nos deixa, de fato, desconcertados. O Espírito é a vida e, no entanto, Ele é soprado pelos lábios de Alguém que foi crucificado, torturado, acusado injustamente e condenado à morte infame, suspenso num madeiro como maldito (cf. Dt 21,23). Como pode a vida brotar de um lenho tão cruel? Como pode o sopro divino nascer justamente da ferida mais profunda da humanidade?
A resposta está no próprio Crucificado. Aquele que foi erguido na cruz é o mesmo que agora se coloca no meio dos discípulos e lhes comunica o Espírito: «Recebei o Espírito Santo» (Jo 20,22). O cenário é de medo: portas fechadas, corações fechados, cada um tentando salvar a si mesmo. Jesus, porém, subverte a lógica do medo. Ele se coloca no centro, não para ser servido, mas para entregar-se. O medo nasce quando nós nos colocamos no centro; a paz nasce quando o centro é ocupado por Alguém que se doa.
A prova dessa entrega está no corpo ressuscitado de Jesus. Ele mostra as mãos chagadas e o lado aberto (cf. Jo 20,20). São sinais de que seu amor não recuou diante da violência, de que sua vida não foi poupada, de que sua fidelidade foi até o extremo. É a partir desse corpo ferido e glorificado que Pentecostes ganha sentido. Se, no passado, Pentecostes celebrava a entrega da Lei a Moisés, agora celebra a nova Lei: o triunfo do amor, a força que permite compreender o outro na sua diferença, como narra a primeira leitura (cf. At 2,1-11).
O Espírito não vem dos palácios, nem dos sistemas que prometem segurança, nem das tecnologias que pretendem prolongar a vida. O Espírito vem de Alguém humilde, humano e totalmente entregue ao Pai. O Espírito nasce de um corpo ferido de amor e de dor. Não existe amor verdadeiro sem ferida; não existe vida plena sem atravessar o território do sofrimento humano. O Espírito é comunicado a partir dessa realidade concreta: por isso, quem o dá aparece com as mãos marcadas e o lado aberto.
Pentecostes, na verdade, não desce apenas do alto; ele brota de baixo. Um grande teólogo de nosso tempo expressou isso com precisão: «O Espírito sobe a partir de baixo da humanidade e constitui o povo de Deus no nível mais baixo» (COMBLIN, O tempo da ação, p. 372). E não foi exatamente assim com Jesus? Ele veio «de baixo»: da kénosis, da encarnação humilde em Nazaré, das aldeias empoeiradas, da convivência com os doentes, os coxos, os cegos, as prostitutas, os impuros. Ele gastou a unção recebida na sinagoga de Nazaré com aqueles que o mundo descartava.
A força do Espírito, portanto, nasce onde a vida parece mais frágil. Ali está o Filho. Ali está o Pai. E se ambos estão unidos, é porque o Espírito é o Amor que os une e que agora nos é soprado para recriar o mundo a partir dos seus lugares mais feridos.
Pentecostes é isso: Deus fazendo a vida renascer onde a humanidade parecia ter chegado ao fim. É o sopro que atravessa portas fechadas, medos acumulados, feridas antigas. É o Espírito que nos devolve ao mundo não como sobreviventes, mas como testemunhas de um amor que venceu a morte.