26º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Entrar na rota divina
P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

A lógica dominante da sociedade ocidental, moldada pelo capitalismo meritocrático, impõe um credo rígido: produza, supere-se, seja eficiente só assim serás digno de recompensa. É a lei do mais forte travestida de virtude. O “super-homem” de Nietzsche triunfa cada vez que alguém se ajusta ao padrão imposto, acreditando que a vida só tem valor quando atinge metas e ultrapassa limites. Esse modelo não apenas organiza a economia; ele infiltra-se nas relações humanas, nos afetos, na espiritualidade. O antigo sistema escravocrata não desapareceu: apenas se tornou psicológico. Ele nos convence de que a liberdade é sempre futura, nunca presente. O “agora” vira um vale de lágrimas, enquanto o amanhã é idealizado como o lugar da vida perfeita. Essa escravidão mental corrói a alma, produz ansiedade, pânico, insegurança e nos afasta de nós mesmos.

Diante disso, a revelação cristã nos convida a mudar de rota. O primeiro passo é romper com a lógica das acusações, comparações e críticas que envenenam as relações. Na Bíblia, esse mal-estar surge quando o povo esquece quem é o Deus de Israel. Por isso, é preciso recordar: voltar ao ponto de partida, ao Deus que não opera segundo a lógica da força, mas segundo a lógica da misericórdia. A oração coleta deste domingo nos revela essa verdade com clareza: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia.” E o salmo responde: “Recordai, Senhor, vossa ternura e compaixão.” A rota divina só se abre quando contestamos os sistemas humanos de recompensa e mergulhamos na lógica do poder de Deus, que é pura graça, gratuidade e amor. Por isso, a primeira leitura é contundente: “Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá” (Ez 18,28).

Na mentalidade bíblica, viver não é simplesmente sobreviver biologicamente (bíos), mas permitir que o Espírito abra espaço para a vida plena (zoé). O super-homem nietzschiano se alimenta apenas do que é carnal; o cristão se nutre da vida que vem de Deus. Mas há um perigo: a religião pode se tornar cúmplice da mentalidade pragmática. O farisaísmo nasce quando, em nome de Deus, alguns se beneficiam de privilégios enquanto deixam o peso das exigências religiosas sobre os mais fracos. No evangelho deste domingo, Jesus desmonta essa lógica. Ele eleva prostitutas e cobradores de impostos (cf. Mt 21,31) não porque ignoram a lei, mas porque acolhem o arrependimento humilde. Enquanto isso, os doutores da Escritura preferem permanecer presos à aparência de santidade, professam com a boca, mas negam com a vida. É preciso mudar de rota.

A liturgia deste domingo nos oferece uma lição prática: o que realmente fundamenta nossa vida? Qual credo estamos professando? O credo do Deus cujo poder se manifesta no perdão e na misericórdia? Ou o credo dos sistemas que moldam economia, moda, ciência e até práticas religiosas que excluem os marginalizados? Mudar de rota é permitir uma reviravolta interior que nos faça enxergar o outro como irmão, que nos abra os olhos para além das aparências. É aproximar-se do gesto de Cristo, que “esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2,7).

Entrar na rota divina é abandonar a lógica da força e abraçar a lógica da graça. É deixar que Deus reconfigure nossa maneira de viver, de olhar, de relacionar-se. É permitir que a misericórdia seja o critério que orienta nossos passos. Só assim viveremos, não como escravos do desempenho, mas como filhos que caminham na liberdade do Espírito.