25º Domingo do Tempo Comum – Ano A

A Graça que escandaliza: quando o céu rasga a lógica humana

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

E se, de repente, descobríssemos que tudo o que chamamos de «mundo real» não passa de um teatro de sombras? E se aquilo que defendemos com unhas e dentes, nossas certezas, nossos julgamentos, nossas convicções, fosse apenas fumaça, projeções frágeis de uma mente que ainda não despertou? O ser humano nasceu com uma ferida e uma fome: a ferida da ignorância e a fome da verdade. É isso que nos distingue. Somos criaturas inquietas, condenadas a buscar o que é sublime, belo e bom, mesmo quando isso nos destrói por dentro.

No mundo antigo, Sócrates percebeu que vivíamos cercados por falsificadores da realidade. Os sofistas vendiam ilusões embaladas em discursos brilhantes, desviando jovens para longe da verdade. Sócrates ousou fazer o impensável: arrancar as pessoas da caverna, obrigá-las a olhar o sol, a suportar a dor da luz. Ele sabia que a verdade não é confortável; é cirúrgica. Ela corta. Ela liberta. Mas para enxergá-la, é preciso morrer. Morrer para a ignorância, para as sombras, para a manipulação que nos mantém dóceis. É preciso uma educação que não adestra, mas desperta. Uma educação que nos arranca do chão e nos lança no abismo da realidade.

Os cristãos têm uma palavra para isso: Metanoia. Não é uma mudança de opinião. É uma mudança de mundo. É o terremoto interior que Jesus provocava em quem o ouvia. Ele enxergava o que ninguém via. Ele denunciava o que todos aceitavam. Ele desmontava as manipulações dos poderosos, especialmente dos religiosos que transformavam Deus em arma para controlar os simples. Por isso, neste domingo, a liturgia nos joga uma bomba espiritual: «Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos» (Is 55,8). Deus não cabe em nossas categorias. Ele não se curva às nossas lógicas. Ele não se deixa aprisionar por nossos esquemas mentais. Ele é o rompimento. Ele é o excesso. Ele é o que desinstala.

Paulo experimentou isso na pele. Quando o Evangelho o atravessou, o mundo antigo desmoronou. Ele viu tudo com novos olhos. O que antes parecia sólido revelou-se ilusão. O que antes parecia importante tornou-se pó. Por isso ele declara, com uma paixão que quase queima o papel: «Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo» (Fl 1,27). Não é slogan. É renascimento. É o manifesto de alguém que foi arrancado da mentira e lançado na verdade.

E então chegamos ao Evangelho deste domingo, talvez um dos mais escandalosos. Nele, Deus destrói a lógica humana de mérito, cálculo e recompensa. Ele age como quer, porque tudo é dele. Ele salva quem nós já condenamos. Ele acolhe quem nós desprezamos. Ele derruba nossos critérios, desmonta nossos preconceitos, humilha nossas certezas. Deus não negocia. Deus surpreende. Deus desconcerta.

E isso nos fere, porque vivemos numa sociedade obcecada pela meritocracia, essa crença sedutora de que tudo se conquista, tudo se paga, tudo se merece. Mas Deus não joga esse jogo. Ele dá o sol para bons e maus. Ele envia chuva para justos e injustos. Ele quebra a lógica da troca e inaugura a lógica da Graça. A Graça é escândalo. A Graça é injusta aos olhos humanos. A Graça é perigosa.

Por isso, talvez o maior gesto espiritual ao sair da igreja neste domingo seja este: deixar cair por terra nossas certezas. A maneira como julgamos as pessoas. A imagem que construímos de Deus. Nossos critérios de justiça. Nossas definições de verdade. Será que são divinos? Ou será que são apenas sombras da caverna? Eu, sinceramente, desconfio.