24º Domingo do Tempo Comum – Ano A

A lógica divina do perdão: onde a humanidade reencontra sua origem

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

A liturgia da Palavra deste domingo nos conduz ao coração do mistério cristão: o perdão como a mais sublime manifestação de Deus na história humana. Entre todas as ações divinas, nenhuma toca tão profundamente a condição humana quanto o perdão. Ele é a ponte que reconduz o ser humano ao seu estado original, àquela vida divina que lhe foi soprada no princípio.

Israel aprendeu isso lentamente. Em meio às guerras, às disputas e às mentalidades que justificavam a violência, o povo foi educado pela sabedoria de Deus a reconhecer que a paz não nasce da força, mas da conversão interior. Por isso, a primeira leitura nos oferece uma chave decisiva: «o rancor e a raiva são coisas detestáveis» (Eclo 27,33). Não foi exatamente o rancor que fez Caim erguer a mão contra Abel? A violência sempre começa quando o ser humano se esquece de quem é, quando perde o autocontrole e rompe com sua própria essência, aquela proto-existência moldada pelo Criador.

Para quebrar esse ciclo destrutivo, Deus introduz na história uma força nova: o perdão, capaz de purificar a memória humana e restaurar o projeto original. No Evangelho, Jesus revela a Pedro, e a todos nós, que o perdão não é uma estratégia moral, mas uma realidade divina. «Até setenta vezes sete» não é uma conta, mas uma porta aberta para o infinito. Pedro pergunta por limites; Jesus responde com eternidade.

A humanidade sempre perdoou dentro de medidas, leis e acordos. Jesus, porém, ultrapassa tudo isso. Ele é o próprio perdão encarnado, a medida perfeita da misericórdia. Não apenas ensinou a perdoar, Ele perdoou como quem ama até o fim, como quem se deixa ferir para que o outro seja restaurado. Por isso nos ensinou a rezar: «perdoai-nos as nossas ofensas». O perdão não é uma ideia; é uma experiência que transforma o coração.

Ao longo da história cristã, poucos viveram essa lógica divina com radicalidade. Maria Goretti é um desses sinais luminosos. À beira da morte, ela acolhe o agressor, reza por ele, deseja-lhe a salvação e o perdoa. Ali, naquele instante, a graça realiza o impossível: salva a vítima e o agressor ao mesmo tempo. No cristianismo, ninguém se salva sozinho. O perdão é sempre comunhão, sempre ponte, sempre recriação.

Por isso Paulo afirma: «ninguém vive para si mesmo e ninguém morre para si mesmo» (Rm 14,7). A vida cristã é sempre vida compartilhada, vida que se sustenta mutuamente. O egoísmo de salvar-se sozinho não pertence ao Evangelho. O perdão, ao contrário, gera unidade, reconcilia a criação e impede que alguém seja lançado ao esquecimento.

Perdoar é entrar na lógica da Trindade. É participar do amor que não abandona, não apaga, não rejeita. É permitir que Deus cure em nós aquilo que a história feriu. É deixar que a vida divina circule novamente em nossas relações.

Perdoar é recordar quem somos: filhos do Deus que nunca cansa de recomeçar.