16º Domingo do Tempo Comum – Ano A

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

Entre o Joio e o Trigo: A Pedagogia da Paciência

Vivemos mergulhados numa sociedade que transformou a velocidade em critério absoluto de valor. Tudo precisa ser imediato, mensurável, produtivo. No trabalho, exige-se aperfeiçoamento contínuo e resultados instantâneos, como se o ser humano fosse uma máquina sempre atualizável. Nos afetos, a atração do corpo parece valer mais do que a lenta construção de uma história de amor: aquela que exigia paciência, renúncia e sacrifício, tão familiar à geração de nossos pais. Na religião, multiplicam-se eventos grandiosos, mas superficiais, onde o improviso substitui a profundidade e a reflexão dá lugar ao espetáculo. Nos estudos, a ética e o bem comum cedem espaço à lógica utilitarista: «conhecimento é poder», e os meios justificam os fins.

É nesse ambiente acelerado, quase sufocante, que a liturgia deste domingo se ergue como um convite ao espanto. O livro da Sabedoria (1ª leitura) apresenta um Deus que não se deixa contaminar pela pressa humana. Ele domina sua própria força, julga com clemência e governa com grande consideração (Sb 12,18). É uma pedagogia divina que não atropela, não força, não impõe: conduz. Educa. Forma. Ensina ao seu povo que «o justo deve ser humano» (Sb 12,19). Em outras palavras, Deus nos educa para sermos gente, e isso leva tempo.

Essa pedagogia se torna ainda mais luminosa no Evangelho, especialmente na parábola do joio e do trigo. Ao perceberem o joio misturado ao trigo, os empregados se inquietam: querem arrancar, separar, eliminar. A lógica deles é a lógica da eficiência. Mas o dono da plantação intervém e ordena que ambos cresçam juntos. É uma decisão desconcertante. Deus não tem medo da convivência entre o bem e o mal, entre a luz e a sombra, entre o que floresce e o que ainda não amadureceu. Ele aposta no tempo. Acredita na conversão. Confia que o ser humano pode retornar àquela primeira existência sonhada por Ele, quando o homem era livre diante de seu Criador.

Esse sonho foi tão intenso que Deus enviou o próprio Filho para realizá-lo. A paciência divina é o modo como Deus insiste em nós: perdoa, levanta, recomeça, incentiva. Mesmo quando nossos instintos de violência, ganância, poder e controle tentam sufocar a graça, Deus permanece ali: firme, paciente, esperançoso.

Mas a nossa geração é ansiosa. Não sabe esperar. Não tolera processos. Não suporta o invisível. Tudo precisa ser rápido, útil, produtivo. Se não for agora, já não serve. E assim descartamos pessoas, histórias, vínculos. Basta observar como tratamos os idosos: tornam-se indesejáveis, como se conviver com eles atrasasse nossos projetos ou ameaçasse o sentido da vida. O pensamento acelerado da eficácia cria um pânico silencioso: sem resultados imediatos, nada parece valer a pena.

Jesus, porém, nos convida a outra lógica. Ele nos ensina a conviver com aqueles que nada podem nos retribuir, porque já perderam quase tudo: honra, dignidade, direitos. Restam-lhes apenas pequenas chamas de vida. Por que apagá-las? Para Jesus, são justamente os gestos que o mundo despreza que mais importam: gestos pequenos, não contabilizados, não exibidos, não transformados em publicidade. Gestos que apenas o coração percebe.

No mundo, existe também um lugar para o joio. E quem sabe – um dia – o testemunho silencioso, fiel e perseverante dos cristãos possa ajudá-lo a deixar de ser joio e tornar-se trigo. Deus não tem pressa. Ele sabe esperar. E talvez seja justamente essa espera que salva.