15º Domingo do Tempo Comum – Ano A

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

O Semeador que não desiste de nós

Estamos diante de uma das sete parábolas do Reino apresentadas no capítulo 13 do Evangelho de São Mateus. A parábola do semeador, proclamada neste domingo, já nos surpreende desde o início: Deus não é propriedade de alguns, não pertence a um grupo específico, não se limita a territórios religiosos ou morais. Ele é Emanuel (Deus conosco) e isso se revela no gesto generoso do semeador que lança a semente em todos os terrenos. Ele semeia na terra boa, sim, mas também à beira do caminho, no solo pedregoso e entre espinhos. A graça não é seletiva; é oferecida por igual a todos. Deus faz o sol brilhar sobre bons e maus. A verdadeira questão não é se Deus nos fala, mas como acolhemos aquilo que Ele nos oferece.

Dentro de cada um de nós convivem todos esses terrenos. Ninguém é apenas terra boa. Somos mistura, contradição, fragmento. E é justamente por isso que esta parábola se torna tão atual: ela nos ajuda a reconhecer os lugares internos onde a Palavra tenta germinar, mas encontra resistências típicas da nossa vida pós-moderna: cansada, ansiosa, muitas vezes movida mais por desejo de glória e competitividade do que por sede de justiça e paz. A liturgia deste domingo nos convida a olhar para esses terrenos com honestidade, para que possamos nos libertar das prisões que nós mesmos criamos.

À beira do caminho está a superficialidade que nos impede de tocar o essencial. É o território das aparências, das máscaras, das narrativas que inventamos para sustentar interesses pessoais ou ideologias que comprometem o bem comum. A Palavra de Deus não deseja permanecer na superfície; ela quer alcançar o nosso ser profundo, o núcleo onde finalmente nos deparamos com a verdade do que somos.

O terreno pedregoso representa o excesso de emoções que nos precipitam, a ansiedade que nos empurra, as decisões tomadas no calor do momento. É a vida vivida sem consistência, sempre seguindo a onda do instante. Nossa época é marcada pela liquidez e pela fragmentação; nunca as emoções falaram tão alto, e nunca fomos tão frágeis diante delas. Mas somos mais do que seres emocionais: somos seres espirituais, abertos a um projeto maior, capazes de enxergar além das aparências que tentam encobrir nossa essência.

Entre espinhos está aquilo que sufoca: preocupações, pressões, medos, expectativas que apertam o peito e roubam o ar. É a sensação de querer respirar e não conseguir, de desejar liberdade interior e encontrar-se preso em situações que drenam a alma. A Palavra de Deus, como semente viva, deseja libertar-nos desses sufocamentos, abrir espaço, devolver-nos o respiro que perdemos.

E, finalmente, há a terra fértil, não o terreno perfeito, mas o coração que confia. É o espaço onde a Palavra encontra acolhida e pode realizar aquilo que promete. Como nos recorda a primeira leitura, a Palavra que sai da boca do Senhor não volta para Ele vazia; ela cumpre sua missão, produz frutos, transforma o que toca. Ser terra boa não é ser impecável, mas ser disponível. É permitir que Deus seja Deus em nós.