P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
A formação dos futuros presbíteros católicos e dos religiosos irmãos encontra-se diante de um desafio novo e inevitável: a crescente presença de jovens neurodivergentes nos seminários e nas casas de formação religiosa. Trata-se de uma realidade que já está entre nós, embora ainda seja pouco discutida de forma aberta, sistemática e corajosa.
Durante décadas, os processos formativos foram organizados com base em um perfil relativamente homogêneo de candidato. Embora existissem desafios humanos, espirituais e afetivos, predominava a ideia de que a direção espiritual e a vida comunitária seriam suficientes para atender à maioria das necessidades dos vocacionados. Hoje, porém, o cenário é muito mais complexo.
O perfil dos candidatos mudou. Ainda encontramos jovens provenientes de famílias estáveis, com sólida inserção eclesial e participação pastoral consistente. Entretanto, eles já não representam a totalidade das vocações que chegam às instituições formativas. Muitos candidatos apresentam trajetórias marcadas por fragmentações familiares, experiências religiosas diversificadas, forte influência das redes digitais e formas distintas de perceber, interpretar e interagir com o mundo. É precisamente nesse ponto que surge uma questão que exige nossa atenção.
A pastoral vocacional e os processos de discernimento têm encontrado um número cada vez maior de jovens que apresentam condições neurocognitivas consideradas neurodivergências. Entre elas, podemos citar o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), as Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), além de outras condições que impactam significativamente a forma como a pessoa aprende, estabelece vínculos, organiza suas emoções e interpreta a realidade.
Diante desse cenário, algumas perguntas tornam-se inevitáveis: nossos seminários estão preparados para acolher essa nova realidade? Nossos modelos formativos foram pensados para esses jovens? Estamos realmente compreendendo suas necessidades ou apenas esperando que eles se adaptem a estruturas concebidas para outro contexto histórico e antropológico? A experiência cotidiana de muitos formadores sugere que existe uma tensão crescente entre os modelos tradicionais de formação e a realidade de alguns candidatos neurodivergentes.
Não se trata de afirmar que os projetos formativos estejam errados. Pelo contrário. Eles foram elaborados com grande riqueza teológica, espiritual e pedagógica, consolidando ao longo dos anos uma tradição valiosa para a Igreja. Contudo, uma estrutura pode ser excelente e, ainda assim, necessitar de atualização diante de novas realidades humanas. É precisamente essa atualização que parece estar sendo exigida hoje.
Enquanto diversas instituições educacionais têm investido na capacitação de profissionais, na adaptação de métodos de ensino e na construção de ambientes inclusivos, os seminários e as casas de formação ainda parecem hesitar em iniciar um debate mais profundo sobre o tema. Escolas e universidades já compreenderam que inclusão não significa diminuir exigências, mas criar condições para que diferentes modos de funcionamento cognitivo possam desenvolver suas potencialidades. Por que esse debate continua tão tímido em nossas casas de formação?
Será que estamos preparados para distinguir imaturidade humana de características neurodivergentes? Será que sabemos reconhecer quando um comportamento aparentemente inadequado é, na realidade, a manifestação de uma condição neurocognitiva específica? Mais ainda: será que estamos acompanhando esses jovens com a mesma compaixão, paciência e competência que esperamos deles em seu futuro ministério? Essas perguntas não são teóricas.
Em uma determinada casa de formação religiosa, avaliações e acompanhamentos psicológicos identificaram um número significativo de jovens com perfis neurodivergentes. O projeto formativo permaneceu o mesmo. As quatro dimensões clássicas da formação – humana, espiritual, intelectual e pastoral – continuaram sendo aplicadas da maneira habitual, seguindo as melhores intenções da instituição e dos seus formadores. Entretanto, algo inesperado aconteceu.
Aquilo que havia sido concebido para promover crescimento e amadurecimento passou a ser experimentado por alguns desses jovens como fonte de profunda exaustão. Rotinas excessivamente rígidas, demandas simultâneas, intensa carga relacional e determinados métodos pedagógicos produziram não o florescimento esperado, mas sinais de desgaste emocional, conflitos comunitários e dificuldades de adaptação.
O problema, portanto, talvez não esteja nas finalidades do processo formativo, mas na forma como ele é aplicado. Uma pergunta emerge, então, com toda a sua força: é razoável presumir que um único modelo sirva igualmente para todos?
A reflexão torna-se ainda mais desafiadora quando consideramos a formação intelectual. Os currículos filosóficos e teológicos foram estruturados segundo métodos tradicionais de ensino e aprendizagem. Mas esses métodos continuam sendo igualmente eficazes para estudantes neurodivergentes? Existem formas pedagógicas mais adequadas para transmitir o patrimônio filosófico e teológico da Igreja sem perder profundidade, rigor crítico e fidelidade acadêmica?
Em outras palavras: é possível pensar uma formação presbiteral e religiosa que reconheça as diferenças neurocognitivas sem renunciar à excelência? É possível preservar a identidade do seminário e, ao mesmo tempo, desenvolver estratégias capazes de favorecer a inclusão e o crescimento integral desses jovens? Essas questões não podem mais ser adiadas.
Não se trata de defender privilégios, flexibilizações indiscriminadas ou redução de exigências. Trata-se de discernir se os instrumentos formativos atualmente utilizados são realmente capazes de identificar, acolher e desenvolver os dons daqueles que Deus continua chamando para o serviço da Igreja.
Talvez estejamos diante de uma das questões mais importantes para o futuro das vocações presbiterais e religiosas nas próximas décadas.
Antes, porém, de aprofundarmos as possíveis respostas, é necessário compreender as origens desse fenômeno. O que explica o aumento das condições neurodivergentes diagnosticadas no mundo contemporâneo? Que transformações culturais, sociais, familiares e tecnológicas moldaram o atual cenário humano? E quais consequências isso produz para a formação presbiteral e religiosa?
Essa será a reflexão do próximo artigo.