P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
Viver com coragem, pedir com humildade, amar até o limite!
O relato da Paixão segundo João que acabamos de ouvir nos apresenta um modo completamente novo de olhar para o sofrimento. Não se trata de exaltá-lo, nem de buscá-lo, mas de enfrentá-lo a partir de uma decisão diferente, uma decisão que só se torna possível porque Jesus, na narrativa joanina, vive um ato extremo de confiança. Três momentos nos ajudam a compreender esse caminho.
O primeiro é a decisão livre de Jesus no Getsêmani. Em João, ninguém arrasta Jesus ao Calvário; ele vai porque quer ir, sente-se livre. Aos olhos humanos, parece derrota, mas na verdade é um ingresso vitorioso. Jesus não se deixa paralisar pelas ameaças de Pilatos ou pelo ódio dos sumos sacerdotes. Ele tem uma causa maior do que o medo: permanecer disponível, permanecer fiel, permanecer ao lado da humanidade. É como uma mãe que passa noites ao lado do filho agonizando no hospital. Ela não ama o sofrimento, mas suporta tudo porque existe algo maior: a vida do filho. Assim também Jesus. O que o move não é a dor, mas o amor. Um coração grande se mede pela capacidade de permanecer, de sustentar, de não abandonar. Quem ama desse jeito vence qualquer desconforto.
O segundo momento é o pedido de Jesus: «Tenho sede». É impressionante perceber que o triunfo de Jesus passa pela necessidade do outro. Ele não vence esmagando, mas pedindo. Ele não se basta. Ele precisa. É o contrário da mentalidade atual, que ensina que vencer é superar o outro, dominar, não depender de ninguém. Jesus mostra que ninguém atravessa a dor sozinho. Até o Filho de Deus pede ajuda. O profeta Isaías já falava desse Servo que carrega dores, mas não se fecha em si mesmo. Jesus, na sua última hora, revela que a verdadeira força nasce da humildade de pedir, de reconhecer a própria fragilidade. Para encontrar um fio de luz na escuridão, é preciso coragem para dizer: «Eu preciso de você».
O terceiro momento é a palavra final de Jesus: «Tudo está consumado». O que está consumado? O amor levado ao extremo. O amor que desceu ao fundo do poço humano. O amor que não calcula, não exige, não negocia, não espera recompensa. Consumado está o início de um novo modo de viver, que contradiz a lógica exaustiva do mundo, que compete, que se desgasta, que se devora. Consumado está um novo ciclo de relações, onde o amor não é teoria, mas entrega concreta. E quem confirma esse triunfo? Não são os poderosos, não são os que gritaram, não são os que julgaram. São a Mãe e o Discípulo Amado, que permaneceram aos pés da cruz. Eles mostram que o sofrimento muda de sentido quando temos alguém por quem entregar a vida, alguém a quem doar o coração. Não existe cristianismo sem relação. Não existe fé sem entrega. Não existe cruz sem amor.
A Paixão segundo João nos convida a olhar para Jesus não como vítima, mas como alguém que escolhe amar até o fim. Ele enfrenta, pede, confia. E nos ensina que o sofrimento não é o último capítulo quando existe amor maior, quando existe alguém por quem permanecer de pé. Hoje, diante da cruz, somos chamados a essa mesma decisão: viver com coragem, pedir com humildade, amar até o limite.