Amar no mundo das distâncias
P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
Na liturgia deste domingo, o evangelista Mateus (cf. Mt 22,34-40) conduz nosso olhar para o coração da vida cristã: o primado do amor. Em diálogo com os fariseus, Jesus é interrogado sobre o maior mandamento da Lei. Sua resposta é tão simples quanto revolucionária: amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todo o entendimento, e amar o próximo como a si mesmo.
Essa síntese não é algo banal. A tradição judaica possuía inúmeros preceitos e prescrições. O risco era perder-se nos detalhes e esquecer o essencial. Também hoje vivemos cercados por uma multiplicidade de ofertas, vozes, opiniões e distrações. Somos diariamente atraídos por promessas de felicidade instantânea e por caminhos que parecem seguros, mas que muitas vezes conduzem à superficialidade.
Diante dessa realidade, o mandamento de Jesus torna-se uma verdadeira bússola para a existência. Quando tudo parece incerto e os valores se tornam relativos, o amor a Deus e ao próximo permanece como o critério seguro para discernir o que realmente vale a pena viver.
Entretanto, é importante compreender que, na revelação cristã, amar não significa cultivar um sentimento abstrato ou defender uma bela ideia. O amor sempre possui um rosto concreto. Por isso, a primeira leitura (cf. Ex 22,20-26) destaca precisamente aqueles que correm o risco de serem esquecidos: o estrangeiro, a viúva e o pobre. Deus pede que ninguém passe indiferente diante deles.
O amor verdadeiro não nasce apenas dos discursos; nasce da capacidade de enxergar a necessidade do outro e responder a ela. Israel deveria recordar constantemente sua própria história e jamais esquecer que também fora estrangeiro e vulnerável. Os fariseus, preocupados com o rigor das normas, pareciam ter perdido essa memória fundamental. Jesus os recorda de que o amor não acontece nas ideias, mas nas obras.
A novidade da fé cristã encontra sua expressão mais profunda no amor entendido como ágape. Diferentemente de uma lógica baseada apenas no desejo ou na reciprocidade, Deus ama primeiro. Em sua kénosis, em seu esvaziamento, aproxima-se da humanidade e entrega-se totalmente por ela. Seu movimento é sempre de descida, de proximidade, de doação.
É justamente esse amor gratuito que revela ao ser humano o seu verdadeiro valor. Deus nos ama não porque somos dignos; tornamo-nos dignos porque somos amados por Deus. Quando acolhemos esse amor, algo novo desperta em nós. Renascemos. Descobrimos quem realmente somos. Por isso Deus é digno de todo amor: porque Ele é o próprio Amor.
Mas Jesus não separa o amor a Deus do amor ao próximo. Eles são inseparáveis. Não existe comunhão autêntica com Deus que não se traduza em comunhão com os irmãos.
O próprio Deus não permaneceu fechado em seu mistério. Seu amor transbordou na criação e na redenção. Se fomos feitos à sua imagem e semelhança, somente amando o próximo participaremos verdadeiramente de seu modo de agir.
É exatamente isso que São Paulo reconhece na comunidade dos tessalonicenses. Ele os elogia porque sua fé tornou-se visível em suas atitudes: “Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor… Assim vos tornastes modelo” (1Ts 1,6-7). A autenticidade da fé não se comprova pelas palavras que pronunciamos, mas pelas marcas que deixamos na vida das pessoas.
Essa mensagem é particularmente urgente em nossa cultura digital. Vivemos uma época em que se fala muito sobre amor, mas nem sempre se vive o amor. Multiplicam-se as declarações sem compromisso, os discursos sem proximidade, as opiniões sem encontro. Corremos o risco de defender grandes causas e, ao mesmo tempo, ignorar quem está ao nosso lado.
Por isso, o Evangelho nos provoca: existe verdadeira proximidade em nossas relações? Nosso amor se traduz em gestos concretos? Nossa fé alcança a realidade das pessoas?
Na Última Ceia, Jesus ofereceu a resposta definitiva. Ele retirou o manto da glória, vestiu o avental do serviço e ajoelhou-se diante dos discípulos para lavar-lhes os pés. Ali está a forma cristã de amar. Amar é descer. Amar é servir. Amar é aproximar-se da realidade do outro sem medo de tocar suas feridas.
Somente quando nos inclinamos diante do próximo descobrimos também a verdade sobre nós mesmos: não fomos criados para a autossuficiência. Nossa humanidade é incompleta quando vive isolada. Fomos feitos para amar e para sermos amados.
Que nesta Eucaristia o Senhor nos conceda a graça de voltar ao essencial. Que o amor a Deus seja a fonte de todas as nossas escolhas e que o amor ao próximo seja a expressão concreta da nossa fé. Porque, no fim, não seremos reconhecidos pela quantidade de palavras que pronunciamos, mas pela medida de amor que fomos capazes de oferecer.