27º Domingo do tempo Comum – Ano A

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

Mais uma vez, a liturgia nos coloca diante de um Jesus que entra em confronto com os sacerdotes e anciãos do povo — homens profundamente religiosos, guardiães das Escrituras, responsáveis por ensinar a Lei e orientar espiritualmente Israel. Contudo, Jesus não se mostra satisfeito com eles. No domingo passado, Ele denunciou a incoerência e a instabilidade dessa liderança: falam, mas não vivem; instruem, mas não testemunham; apontam caminhos que seus próprios pés se recusam a trilhar.

A raiz dessa contradição é antiga: o desejo humano de transformar o dom em posse, o serviço em domínio. É o velho impulso que atravessa a história da relação entre Deus e o ser humano — a tentação de controlar aquilo que deveria ser cuidado. E, quando se tenta controlar, nasce o medo de perder. Mas a vida humana é feita de perdas, limites, fragilidades. Não se cura o medo dominando os outros, mas reconhecendo que só existimos plenamente quando dependemos uns dos outros, quando aceitamos que a humanidade é uma obra coletiva. Há, porém, sempre uma possibilidade de mudança. Sempre. Ela começa quando deixamos de fazer do poder uma fortaleza, quando abandonamos a ilusão de que já chegamos ao fim do caminho e não precisamos mais crescer. Tudo indica que era exatamente essa a postura dos sacerdotes e anciãos a quem Jesus dirige sua palavra neste domingo.

A pedagogia de Deus, porém, é outra. Ele cria o mundo gratuitamente, como um presente. Entrega-nos a criação com generosidade e espera que cuidemos dela com o mesmo amor com que Ele cuida de nós. A vinha — imagem central desta liturgia — é símbolo desse carinho divino. Deus prepara tudo com delicadeza: «Cercou-a, limpou-a de pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre no meio e construiu um lagar. O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?» (Is 5,2.4). A intenção divina é sempre boa, sempre amorosa, sempre voltada ao florescimento da vida.

Por isso, esta liturgia não pode ser interpretada de modo fundamentalista, como se revelasse vingança divina ou rejeição de Israel. Não há, no coração de Deus, espaço para antissemitismo ou para qualquer lógica de substituição. O Evangelho deste domingo revela outra verdade: Deus insiste. Deus recomeça. Deus oferece novas chances. Ele envia profetas, e por fim envia o próprio Filho — não para condenar, mas para despertar. A parábola não fala de um povo que substitui outro, mas de um Deus que não desiste de sua vinha, que não abandona sua obra, que não se cansa de chamar à conversão aqueles que se julgam autojustificados. Deus integra, harmoniza, reconcilia; não elimina um para exaltar outro.

Diante disso, a liturgia nos provoca a olhar para nós mesmos: será que nossas religiões — e, de modo particular, o cristianismo contemporâneo — estão correspondendo à confiança divina? Ou estamos caindo na tentação da autorreferencialidade, acreditando que somos uma religião soberana, fechada ao diálogo, segura demais de si para se deixar converter? A verdadeira conversão exige desapego da autojustificação religiosa e abertura ao lento, exigente e belo caminho interior que transforma o coração.

Talvez seja por isso que a segunda leitura nos oferece um critério tão simples quanto profundo, quase um exame de consciência permanente: «Ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor» (Fl 4,8). Eis o caminho da vinha bem cuidada. Eis o terreno onde Deus pode, enfim, encontrar frutos.