17º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Despir-se para encontrar o Tesouro

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

Costuma-se repetir que a pós-modernidade trouxe ao sujeito a tão sonhada liberdade. Antes disso, na modernidade, celebrava-se a autonomia como conquista suprema: o indivíduo finalmente ousara pensar por si mesmo: Sapere aude! Mas talvez tenhamos transformado essas ideias em mitos reconfortantes. Autonomia em relação a quê? Liberdade diante de quem?

Joseph Comblin (1923-2011) observa que, para o pós-moderno, ser livre significa «deixar a vida fluir espontaneamente, viver simplesmente, ser levado pela vida, tirar todas as barreiras que impedem a espontaneidade da vida» (COMBLIN, Vocação para a liberdade, 229). É uma definição sedutora e, segundo Comblin, profundamente ambígua. Pois o desejo que supostamente brota de forma espontânea não é tão espontâneo assim: ele é moldado, programado, calibrado pela sociedade. O sujeito acredita escolher, mas apenas se esforça para se encaixar no padrão que lhe foi previamente oferecido.

E aqui surge o paradoxo: nunca se falou tanto em liberdade, e nunca se foi tão escravo. Escravo de expectativas, de imagens, de metas, de performances. Escravo de um desejo que não nasce do coração, mas do mercado.

A liturgia deste domingo nos oferece um contraponto luminoso. Salomão, diante da vastidão das possibilidades humanas, não pede poder, nem riqueza, nem sucesso. Ele pede sabedoria: um coração capaz de discernir e praticar a justiça. E justiça, na lógica bíblica, nunca é apenas conquistar o que se deseja; é incluir o frágil, proteger o vulnerável, reconhecer que o outro é parte essencial da minha própria humanidade.

A pós-modernidade, com seu credo individualista, devora tudo. O sujeito se imagina senhor do céu e da terra, mas vive exausto, inquieto, sempre à procura de algo que não sabe nomear. Jesus chama essa outra lógica de Reino de Deus: uma realidade que reorganiza o olhar, que desloca o centro, que liberta do excesso.

O Reino é como um tesouro escondido: não se encontra na superfície ruidosa da vida, mas na profundidade silenciosa do essencial. Para percebê-lo, é preciso vender tudo: não no sentido literal, mas simbólico. Vender as ilusões, os acúmulos, as urgências fabricadas, as identidades performáticas. Despir-se do excesso para reencontrar o que é verdadeiramente livre: como as aves que não acumulam, como os lírios que não se angustiam.

Essa liberdade não depende de aprovação, nem de produtividade, nem de sucesso. Ela nasce de uma decisão interior: confiar-se Àquele que faz nascer o sol sobre bons e maus, que sustenta a vida sem exigir contrapartidas, que oferece sentido sem impor pesos.

A sabedoria que Salomão pediu, e que Jesus revela nas parábolas, não é um dom instantâneo. É uma vocação. Uma construção lenta, paciente, que exige discernimento contínuo. É o processo de aprender a escolher o essencial quando tudo ao redor grita pelo supérfluo.

Talvez a verdadeira liberdade não seja «deixar a vida fluir», mas aprender a escutar o que a vida tenta dizer quando finalmente silenciamos o ruído que nos aprisiona.