P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

Meditação
O Evangelho de Mateus 9,9-13 marca uma mudança decisiva na compreensão de Deus. Ali, Jesus ultrapassa os limites estreitos da religião oficial e inaugura o espaço vivo da Revelação. O que Ele manifesta não cabe nos esquemas rígidos do sagrado institucionalizado; é maior, mais livre, mais humano. É Deus surpreendendo a religião e abrindo caminhos onde antes só havia muros.
A cena do chamado de Mateus é muito mais que a vocação de um homem. É um resumo do coração do Evangelho. Nela se condensam a misericórdia como centro da ação de Jesus, o conflito inevitável com a velha imagem de Deus e o surgimento de um novo modo de ser santo: a santidade que nasce no cotidiano, no chão da vida real.
A prática de Jesus tem um nome: misericórdia. E ela se revela no encontro com Mateus. Para recebê-la, não é preciso ser puro, mas é preciso ser verdadeiro. A porta da misericórdia só se abre quando alguém reconhece a própria ferida. Caravaggio captou isso com genialidade ao pintar Mateus curvado sobre o dinheiro, como quem carrega o peso do próprio pecado. Ele sabe quem é. Sabe que é odiado, desprezado, visto como traidor. Tem o sangue de Israel, mas serve ao império. Alimenta-se da exploração. E, no entanto, é justamente ali – no lugar onde sua miséria é mais evidente – que Jesus o encontra.
O olhar do Galileu inicia um combate silencioso: de um lado, a miséria assumida; do outro, a misericórdia oferecida. É assim que Deus age. Ele não salva santos impecáveis, mas pecadores que finalmente se permitem ser alcançados. É o mesmo movimento do filho pródigo: só depois de tocar o fundo do poço, de sentir o cheiro dos porcos, ele percebe que existe uma casa onde a misericórdia o espera. Ninguém se salva pela própria perfeição, mas pela coragem de admitir que precisa ser salvo.
O encontro gera festa. Jesus entra na casa de Mateus, e logo a mesa se enche de pecadores e cobradores de impostos. É a celebração da graça que chega antes do merecimento. Mas onde há festa da misericórdia, há também o escândalo dos que preferem o sacrifício. Os fariseus não suportam ver Deus perdoando sem exigir nada em troca. Para eles, Deus ainda espera cabritos queimados, rituais de expiação, purezas calculadas. O Deus de Jesus, porém, não queima o pecador: carrega-o nos ombros. Ele não exige vítimas: salva as vítimas. Essa tensão – entre a religião que separa e o Deus que aproxima – acompanhará Jesus até a cruz.
A perícope termina com uma frase que deveria estremecer qualquer coração religioso: «Quero misericórdia e não sacrifício. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores». Aqui nasce um novo estilo de santidade. Não a santidade vitrificada, protegida por rituais que separam puros e impuros, mas a santidade que se mistura com a vida real. Jesus não teme tocar o pecado; Ele o toca para curá-lo. Ele entra nas feridas humanas como quem entra num templo vivo. A santidade de Jesus não é a do altar isolado, mas a da mesa compartilhada. Não é a do incenso que sobe, mas a do amor que desce até o chão onde o pecador está caído.
Essa é a pedagogia de Jesus: Ele nos encontra onde estamos. Não onde deveríamos estar, mas onde realmente estamos – curvados, cansados, feridos, carregando pesos que às vezes nem sabemos nomear. Como fez com Mateus, Ele se aproxima, olha, chama. E quando a miséria humana encontra a misericórdia divina, nasce uma vida nova.