Santíssima Trindade (Ano A)

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

A Trindade: o sonho de Deus para a comunidade humana

Celebrar a Santíssima Trindade é contemplar o coração de Deus pulsando em forma de comunhão. Pai, Filho e Espírito Santo vivem num eterno movimento de entrega, reconhecimento e amor: é a chamada pericorese das três pessoas divinas. Não é pura teoria: é a revelação de que Deus é relação, e que toda verdadeira comunidade nasce desse mistério.

Fraternidade, para a fé cristã, não é mera convivência ou proximidade física. É colocar-se diante do outro como quem contempla um sacramento vivo. Na Trindade, o Pai ama o Filho; o Filho nos oferece o amor que recebe; o Espírito é o próprio laço que une. As três Pessoas divinas só sabem amar, e é por isso que a Trindade é, como dizia Leonardo Boff, a melhor comunidade.

Se quisermos compreender o que isso significa para a sociedade, basta recordar o versículo que resume todo o Evangelho: «Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único» (Jo 3,16). Aqui está a chave: Deus não ama ideias, sistemas ou estruturas. Deus ama o mundo (criação), ama as pessoas (humanidade), ama a vida concreta. E esse amor é tão radical que se faz doação total. A Trindade é o modelo e a fonte desse dinamismo: amor que gera vida, vida que se faz comunhão.

Mas quando olhamos a história humana, percebemos o quanto nos afastamos dessa lógica. Autoritarismos, populismos e projetos de poder (guerras) continuam a ameaçar a dignidade humana em nome da ordem ou da segurança. São sistemas que se erguem contra o sonho trinitário, pois alimentam o medo, a exclusão e a tirania, essa forma de governo que, como dizia Platão, se alimenta das vísceras humanas.

Ainda assim, o ideal trinitário não é utopia ingênua. Ele é possível, desde que nos disponhamos a educar novas gerações para a gratuidade e o cuidado. Gratuidade é agir sem buscar vantagem; cuidado é proteger a vida frágil.

Jesus não compactuou com sistemas que excluíam e oprimiam. A sua Carta Magna são as bem-aventuranças, que inauguram uma sociedade fundada na justiça, na misericórdia e na paz. O Reino que Ele anuncia não é um território a ser conquistado ou implantado, mas uma ação contínua de libertação integral. Ele não ocupa espaços, Ele almeja o coração do homem.

Por isso, celebrar a Trindade é assumir o compromisso de construir, no cotidiano, uma sociedade que reflita esse amor que gera vida. É recusar bandeiras de divisão e tornar-se ponte, não muro. É deixar que o amor trinitário nos converta por dentro, para que possamos converter o mundo por fora.

A Trindade nos revela o sonho de Deus: uma humanidade que viva como Ele vive: em comunhão, em cuidado, em amor que se doa.

Que esta solenidade desperte em nós o desejo de sermos cidadãos do Reino, homens e mulheres que acreditam que a comunhão é possível e que o amor – quando é verdadeiro – sempre transborda em vida nova.