Apologia ao Crucificado

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

1. A singularidade do cristianismo: Jesus como mensagem e mensageiro

O cristianismo tem uma essência diferente em relação às demais religiões. Segundo Romano Guardini (1885-1968), sua singularidade reside em um duplo aspecto centrado em torno da pessoa de Jesus: Ele não apenas comunica um ensinamento, como fizeram outros personagens religiosos (Buda, Gandhi, Confúcio), mas Ele mesmo é o conteúdo anunciado. Em outras palavras, em Jesus, mensagem e mensageiro coincidem. Por exemplo, nos evangelhos sinóticos, Jesus proclama a Boa Nova (o Reino de Deus e o Pai). Já no quarto Evangelho, na expressão «Eu sou», Jesus deixa transparecer que Ele é o que anuncia, e não somente quem anuncia. As figuras religiosas transmitem uma mensagem, mas não são tal mensagem. O cristianismo, desta forma, é uma pessoa divina que, além de proclamar uma Boa Notícia, é também esta notícia.

2. O querigma como centro e o risco do esquecimento

À luz disso, com a Ressurreição de Jesus, a Boa Notícia concentra-se especificamente no evento da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus (cf. At 2,14-41: discurso de Pedro em Pentecostes; At 10,37-43: pregação na casa de Cornélio), que a comunidade primitiva chama de querigma (primeiro anúncio).

A questão atual é a seguinte: parece que o cristianismo tende a esquecer não apenas a mensagem de Jesus (Reino de justiça, paz e fraternidade), mas a totalidade do próprio querigma.

Ocorre, então, um sutil deslocamento de eixo que revela uma mensagem distante do que foi revelado: surge um cristianismo muito centrado nas necessidades pessoais, de cunho individual e narcisístico. Nesse contexto, falar do anúncio da Paixão/Ressurreição parece algo distante, pois suas consequências implicam um compromisso mais exigente, não apenas em nível pessoal, mas também comunitário.

3. O escândalo da cruz e o deslocamento de eixo

É justamente aqui que reaparece o ponto decisivo: a pregação sobre o escândalo da cruz, com a qual o Apóstolo Paulo cimentou todo o seu ministério (cf. 1 Cor 1,23-24), quase não se ouve ecoar nas Igrejas nem nos meios de comunicação religiosos. Há algo errado!

Seria pelo fato de um homem na cruz não atrair mais os olhares? Ou talvez porque a dor e o sofrimento humano sejam demasiadamente desconfortáveis para as clínicas de beleza e comprometedores para a imagem externa que tanto se busca? Como pode o cristianismo ter mudado a sua essência com o gradativo avanço de práticas como curas, intercessões, devoções, rosários, novenas, romarias, retiros etc.?

Todas essas práticas não deveriam ser legitimadas e fundamentadas em Cristo Crucificado/Ressuscitado? Não deveria ser o querigma a fonte de sentido para toda e qualquer iniciativa eclesial?

4. O paradoxo da cruz: resiliência e esperança
Sem o Crucificado, a cruz da existência torna-se um verdadeiro inferno, porque a vida humana estaria condenada a ser uma tragédia. O sofrimento seria experimentado como fracasso, derrota, frustração. Com Jesus, porém, a mensagem da cruz torna-se resiliência e esperança.

O teólogo chileno Segundo Galileia (1928-2010) insiste na dimensão do paradoxo da cruz, afirmando: «se a cruz é a frustração aparente de uma promessa; ao mesmo tempo e paradoxalmente é também o momento de seu triunfo» (Galileia, O caminho da espiritualidade, p. 228). De fato, na cruz há o mal e a violência (em si, a cruz é tortura), mas Aquele que a abraçou e nela morreu abriu uma nova estrada de esperança, de força e de sentido, para que a vida possa ser vivida de modo diferente.

Eliminar esse paradoxo é empobrecer o cristianismo e danificar a sua essência. Quando a busca de Deus se reduz à satisfação pessoal das próprias necessidades, o cristianismo se transforma em uma religião de mercado, na qual sobressai a mentalidade de um Deus «tapa-buraco».

Isso compromete a imagem de Deus que Jesus revelou na sua hora mais extrema: naquela hora em que Ele também, sentindo necessidade, gritou e agonizou, mas sem cair na tentação de uma lógica de troca, de «uma mão lava a outra». A lógica do Crucificado é a fidelidade por amor, abraçando, com disponibilidade, a vontade divina.

5. Conclusão: seguir o Crucificado-Ressuscitado
O sutil deslocamento de eixo, referido anteriormente, consiste em esconder e esquecer que o cristianismo é uma decisão de «seguir» o Crucificado-Ressuscitado. Em vez disso, corre-se o risco de colocar no lugar desse apelo uma prática de fé sem caminho e pouco responsável diante da história do sofrimento da qual cada um padece. Voltar ao querigma é reencontrar o centro: nele, a vida cristã ganha critério, sentido e direção.