Homilia – 5º Domingo da Páscoa – Ano A

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14, 6)

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

As palavras de Jesus soam desconcertantes. No mundo antigo, acreditava‑se que apenas o conhecimento poderia arrancar o ser humano de sua condição limitada. Na cultura grega, por exemplo, a plenitude era alcançada pelo esforço racional, pela ascese intelectual, como quem rema contra a maré: quanto mais força, mais perto do destino. A verdade era uma conquista árdua, reservada aos fortes.

Jesus, porém, rompe essa lógica. Ele não diz «eu conheço a verdade», mas «eu sou a verdade». A verdade não é uma ideia a ser alcançada, mas uma pessoa a ser encontrada. Nele, não há distância entre o que é e o que faz. Sua vida inteira é transparência. Por isso Ele é também o caminho e a vida: porque sua existência revela, em gestos concretos, aquilo que Deus é.

E aqui está o grande desafio do cristão de todos os tempos: transformar fé em vida. Há quem defenda ideias religiosas com ardor, mas sem nenhuma obra que traduza cuidado, compaixão ou serviço. O cristianismo não é um debate, é um modo de viver. Não é teoria, é seguimento. Não é uma ideia brilhante, é uma pessoa viva.

No Evangelho deste domingo, Jesus une os verbos ver e conhecer. No mundo judaico, ver Deus era impossível. Mas Jesus afirma: «Quem me vê, vê o Pai». Conhecer, então, não é acumular informações; é entrar em intimidade. Deus se deixa conhecer na vida concreta de Jesus e, por consequência, na vida concreta de quem o segue.

Vivemos hoje uma corrida desenfreada por conhecimento. Francis Bacon (1561-1626) dizia que «conhecer é poder». E, de fato, o avanço científico trouxe benefícios incontestáveis. Mas também gerou sombras: armas, destruição ambiental, desigualdade, arrogância intelectual. O conhecimento, quando separado do amor, pode ferir.

Jesus aponta outro caminho: a verdade que liberta é aquela que se faz vida compartilhada. É a sabedoria que nasce da experiência, da perseverança, da convivência. É um caminho aberto a todos, doutos e simples, santos e pecadores. Se o Evangelho fosse apenas uma teoria a ser aprendida, seria cruel. Mas ele é vida, e vida só se aprende vivendo.

A primeira leitura (At 6,1‑7) confirma isso. Diante do conflito entre as viúvas de origem grega e hebraica, os apóstolos não respondem com discursos, mas com organização concreta do serviço. Escolhem homens para cuidar das mesas, para que ninguém fique de fora. Desde o início, a fé cristã se expressa como sabedoria prática, como cuidado real.

Se alguém deseja saber se é realmente cristão, não precisa de grandes teorias. Basta fazer a prova do serviço. Colocar‑se à mesa com os outros, partilhar tempo, dons, presença. A verdade de Jesus não se impõe; ela se oferece. Não vence pela força, mas pela vida entregue.

Seguir Jesus é caminhar como Ele caminhou, viver como Ele viveu, amar como Ele amou. Esse é o caminho. Essa é a verdade. Essa é a vida.