O que está acontecendo com a Vida Religiosa Consagrada? (VI)

P. Ademir Guedes Azevedo, cp

Uma espiritualidade da autorrealização ou do ideal da autenticidade

O corredor do convento ainda estava silencioso quando dois religiosos se encontraram diante da sala comunitária. Irmão Rafael: Mudaram de novo o horário da oração da manhã. Ninguém me avisou. Assim fica difícil manter a disciplina. Frei Lourenço: Rafael, às vezes me pergunto se nossa maior dificuldade é o horário… ou o fato de querermos que tudo funcione do nosso jeito. Irmão Rafael: Não é isso. É questão de ordem. Se cada um seguir apenas o que sente, vira confusão. Frei Lourenço: E se cada um ignorar o que sente, vira mediocridade. Estamos discutindo horários, panelas, pequenas regras… mas quase nunca falamos do que realmente nos move por dentro. Irmão Rafael: Talvez seja mais fácil discutir o relógio do que discutir o coração. Frei Lourenço: Pois é. E enquanto fugimos de nós mesmos, vamos transformando a vida consagrada numa disputa silenciosa por espaços, direitos e pequenas certezas. Talvez seja hora de reaprender a escutar o que Deus diz dentro de nós, antes de discutir o que a comunidade deve fazer fora de nós.

Esse breve diálogo, tão comum nos corredores de nossas casas religiosas, revela um ponto sensível: a tensão entre a vida exterior e a interioridade, entre a rotina comunitária e a autenticidade pessoal. É justamente nesse ponto que se insere a reflexão deste artigo.

1. Introdução teológica

Nos artigos anteriores delineou-se o panorama teológico da vida religiosa consagrada a partir de suas três bases fundamentais – espiritualidade, fraternidade e missão – e apresentou-se uma análise filosófica que evidenciou a crise de sentido vivida por este estado de vida diante da fragilidade própria da condição pós-moderna do sujeito. Chega agora o momento de revisitar essas três dimensões à luz da subjetividade contemporânea, reconhecendo nelas uma oportunidade de renovar o potencial da vida consagrada e sua relevância para o nosso tempo. Neste artigo, iniciamos pela ressignificação da espiritualidade, retomando o estudo anterior que destacou o valor da autenticidade como aspecto positivo da subjetividade moderna.

2. A autenticidade como categoria espiritual

De que modo o ideal da autenticidade pode ser traduzido em termos de espiritualidade? A sede humana por autorrealização encontra seu paradigma mais pleno na própria experiência de Jesus de Nazaré. Ele viveu a maturidade da subjetividade ao não permitir que família, religião, política ou estruturas sociais sufocassem sua liberdade interior. Emancipou-se das convicções, normas e tradições que moldavam o espírito de sua época, revelando um modo novo de existir.

A subjetividade de Jesus manifesta-se em sua busca incessante de cumprir a vontade do Pai e anunciar a realidade inédita que chamava de «Reino de Deus». Os evangelhos mostram que Ele conquista sua autonomia interior ao não se deixar absorver por escribas, fariseus, saduceus, zelotas ou herodianos. Sua liberdade não brotava de uma lei externa, como nas sociedades tradicionais de controle, mas de um impulso vital que emergia de seu próprio interior. Para Jesus, o que estava em jogo era a liberdade integral do ser humano. Não é essa, afinal, a mesma aspiração que move o ideal moderno de autenticidade?

3. A longa história da subjetividade e o papel pioneiro da vida consagrada

Durante séculos, o desejo de autorrealização permaneceu sufocado, salvo em manifestações marginais. Nas sociedades pré-modernas, poucos conseguiram alcançar a genuinidade da subjetividade ou viver o ideal da autenticidade. Paradoxalmente, foi a vida consagrada que, dentro da própria Igreja, abriu espaço para esse anseio.

Francisco de Assis é um exemplo emblemático. Para viver sua autonomia interior e realizar sua sede de autenticidade, precisou libertar-se das expectativas familiares e das pompas eclesiais que contradiziam a pobreza evangélica. Viveu integrado a tudo e a todos, em plena liberdade diante da sociedade medieval.

Entretanto, como o ideal da autenticidade ainda não havia penetrado o tecido social, muitos que ousaram pensar de modo diferente foram brutalmente reprimidos. Rotulados como hereges ou bruxos, pagaram com a própria vida a coragem de escutar a voz interior, lugar onde brotam os motivos mais genuínos da autorrealização e da verdadeira felicidade.

A vida religiosa consagrada, por sua vez, caminhou frequentemente na contramão da lógica dominante, sustentada por uma convicção radical enraizada no Evangelho. Por isso, tornou-se expressão de uma espiritualidade que testemunhava o mais autêntico da revelação divina.

4. A espiritualidade da autenticidade como caminho para o presente

Nesse horizonte, a espiritualidade da autenticidade sempre fez parte da vida consagrada. No atual contexto de crise, ela pode reacender-se quando os consagrados reconhecem sua subjetividade como oportunidade de resistir à mediocridade. Essa postura permite manter distância crítica do individualismo que empobrece a subjetividade, reduzindo-a a expressões mesquinhas e alimentando uma lógica de sobrevivência sem solidariedade.

Os fundadores, ao contrário, compreenderam a subjetividade como denúncia profética, crítica social e apelo ao essencial do Evangelho. Sua originalidade consistiu em interpretar a interioridade não como egoísmo competitivo, mas como força humana capaz de revelar ao mundo algo novo e autêntico, rompendo com visões rotineiras da realidade.

Talvez seja tempo de os consagrados despertarem novamente para essa novidade. Em vez de insistir na própria sobrevivência institucional, é preciso assumir um novo desafio: descobrir que a consagração evangélica não nos torna diferentes no sentido de superioridade, mas mais autênticos e livres para servir.