O que está acontecendo com a Vida Religiosa Consagrada? (V)

P. Ademir Guedes Azevedo, cp

Apelo à autenticidade

Os últimos quatro artigos conduziram o debate à seguinte reflexão: a época atual, chamada de pós-modernidade, transformou radicalmente o modo de viver dos consagrados. Mesmo que existam as regras e as constituições de cada Congregação, Ordem ou Instituto, fruto de árdua reflexão e inspiração divina, os consagrados tendem mais a absorver o status quo da cultura atual. Se isso realmente se verifica nas entrelinhas do cotidiano, o qual faz transparecer a ambivalência entre o real e o ideal, então é necessário esboçar a chamada pós-modernidade como o lugar por excelência onde os consagrados podem viver a sua vocação, sem abdicar daquele elemento intrínseco a toda forma de VRC, a saber: a radicalidade. Mas qual seria o elemento substancial da pós-modernidade que coincide com a natureza da vida consagrada? Trata-se da AUTENTICIDADE.  

A fim de elucidar tal elemento, é necessário apresentar o que tem de mais sutil no espírito de nossa época e encará-lo como estilo de vida. Associando-a com a fé, tal sutileza torna-se uma espiritualidade. Charles Taylor, ao investigar o real significado da modernidade, encontra a sua originalidade numa ética da autenticidade. Para ilustrá-la deve-se partir de uma característica indelével de tal época: se trata da subjetividade. Esta palavra pode soar estranha num ambiente que tem a vida comunitária como elemento constitutivo.

Quando a vida se desenvolvia num universo pré-moderno, o sujeito perdia-se numa coletividade marcada pelo controle dos ritmos da vida em todos os seus âmbitos. Era o grupo, a vila, a pertença religiosa, a família que controlavam e determinavam os momentos relevantes que todos deveriam tomar parte. O sujeito não podia destacar-se, pois era sufocado por um coletivismo hegemônico.

Mas eis que a história e o espírito humano enveredaram por caminhos inéditos. A nível filosófico, a metafísica foi contestada em seu universalismo, cedendo espaço àquilo que o sujeito pode conhecer através dos fenômenos filtrados por sua razão pura. O objeto de conhecimento não é mais encontrado na natureza, mas centra-se em torno do próprio sujeito, o qual se torna objeto de si mesmo. Colhe-se, gradativamente, a singularidade do próprio sujeito e ele passa a ser o centro, tomando distância da natureza e desencantando-a de seus mistérios. Tudo passa a ser codificado em fórmulas precisas e a ciência cria seus métodos de indução. A «verdade» deve ser algo verificável, partindo da observação, não mais de deduções abstratas. A subjetividade torna-se um elemento relevante à medida que o próprio sujeito ousa dar os passos rumo à conquista de sua autonomia em relação às antigas instituições que mantinham o controle da vida.

O que está por trás da subjetividade que constitui a sutileza do espírito da modernidade não se trata de um subjetivismo que tudo relativiza, pondo em risco a verdade, nem tão pouco é uma degeneração dos valores humanos; não é a isso que se refere a subjetividade moderna. Ao colocar ênfase na complexidade do sujeito, o espírito moderno reivindica algo que sempre esteve presente no mais profundo do Ser e que nas épocas anteriores nunca foi possível conquistar, salvo raras exceções, trata-se da autorrealização da pessoa, daquilo que constitui o ideal da autenticidade. Ser você mesmo, conquistar a singularidade, fazer emergir a originalidade, ter personalidade própria. Isso é o verdadeiro sentido da subjetividade moderna.

O que isso tem a ver com a Vida Religiosa Consagrada? Como a subjetividade pode ser oportuna aos (as) consagrados (as) para continuarem aquele elemento de radicalidade que os situa no mundo? No próximo capítulo vou argumentar a respeito…