O BURACO NA FORMA DE DEUS

Pe. Eugênio Mezzomo, cp

O título da reflexão o tirei do livro A Geração Ansiosa, de J. Haidt, que fala sobre amadurecimento das crianças e adolescentes. Para isso, cita Blaise Pascal (cf pg. 248). Existe um buraco, um vazio em nós, que precisa ser preenchido. A religião e as experiências do sagrado seriam a melhor forma de preenchê-lo. Podemos preencher este buraco com coisas positivas e valiosas, ou acabamos por colocar lixo nele e estragamos o ser humano. Ele nos fala que os nossos adolescentes, em lugar de colocar coisas boas, acabam enchendo o buraco com o conteúdo dos celulares, que são vazios e não favorecem o crescimento e a verdadeira construção de uma vida saudável. Ele cita também Buda, que teria dito: “Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos.” Assim a nossa alma assume a cor dos pensamentos.  

O autor valoriza muito a experiência do sagrado, que eleva o ser humano. O cantar junto com outros, o celebrar com danças e procissões. Até mesmo gritar juntos num estádio de futebol, eleva a experiência emocional e energiza a comunhão das pessoas.  Vida em comunidade e em experiências de oração e movimentos corporais podem ajudar e muito a dar sentido para a vida e fazer crescer a maturidade humana. Desenvolve o crescimento da confiança, do afeto do verdadeiro amor. É celebrando juntos, que nos desenvolvemos e nos tornamos mais humanos e maduros. Até visitar lugares, santuários, festas e sobretudo partilhando a comida em banquetes festivos nos torna mais sociáveis e capazes de assumir o viver humano integral e com sentimentos felizes. Os ambientes mais indicados para isso são os ambientes espirituais.  

A religião tende a elevar a natureza humana. As práticas espirituais como oração, meditação, confissão e práticas espirituais contribuem para fazer a pessoa mais segura, feliz e amorosa. Ela contribui para o bem estar da pessoa, reduz o egoísmo e a pessoa vai além de si mesma. Leva ao transcendente, leva para Deus, que é vida. Frequentar a Igreja e encontrar pessoas nos torna mais fraternos e partilhamos nossas necessidades e desejos. Os movimentos, como ajoelhar-se, levantar, dançar fazem a pessoa se envolver e descobrir mais sentido para a vida. Amplia a comunhão e confiança. Participar de casamentos e velórios e outros ritos nos leva a experimentar juntos diversos sentimentos que nos envolvem e nos fazem superar a nós mesmos. Os teólogos nos dizem que isso é transcender-se, é crescer e ir para Deus. 

Os eventos comunitários enriquecem nosso modo de ser, de pensar e de partilhar. Nós “partilhamos o pão na Eucaristia” e nos unimos em Cristo num só corpo. A meditação acalma a mente e altera para melhor nossa consciência. Supera a irritação, as emoções negativas e as pressões internas. Tende até a melhorar a moral e o modo de ser, o que pode favorecer a felicidade. Na meditação podemos até melhorar a ideia que fazemos de nós mesmos e encontrar o caminho do que realmente tem valor, afastando ideias de superioridade, de lucro, vanglória etc. Podemos mergulhar em Deus. Seguindo o Evangelho de Cristo aprendemos a julgar menos e perdoar, como vemos no sermão da montanha de Mt 5-8. Procuramos até amar o próximo como a nós mesmos. 

Tomás de Aquino nos fala que a natureza pode ser uma demonstração da existência de Deus, quando elenca as 5 demonstrações da existência de Deus na Summa Theologica.  Diz o Sl 19: “Os céus cantam a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos.” Pessoalmente gosto de contemplar a natureza quando viajo. Não uso celular e fico olhando a paisagem pela janela. Eu me encanto com a natureza. E contemplando a grandeza do universo descubro a grandeza de Deus. Em Ponta Grossa, sempre andei pelo jardim e pelo espaço externo no meio das árvores. Sempre gostei de contemplar o nascer e o pôr do sol. Gosto de viajar e contemplar. Fui várias vezes ver as cataratas de Foz do Iguaçú e outras quedas de água. 

A natureza pode levar as pessoas a se sentirem elevadas e menos repulsivas. São verdadeiros rituais que nos elevam e preenchem o buraco de Deus em nosso íntimo. São Paulo da Cruz gostava muito das flores. Batia nelas com o bastão. Dizia: “Vocês gritam que Deus me ama. Eu sei que Deus me ama”. Ele se encantava com as flores do jardim do Monte Argentário. 

Ele fala também de usar a meditação ou a contemplação para encher o buraco. Pede para meditar todos os dias e contemplar Deus sobretudo no íntimo de nosso ser. Aos leigos, que tinham pouco tempo disponível, ele pede pelo menos 15 minutos por dia de contemplação e um aninhar-se no seio de Deus. Mas, para os religiosos da Congregação, pede pelo menos uma hora. Geralmente era feita na capela, o que organiza mais o nosso corpo e o nosso pensamento em Deus, sobretudo se nos damos conta da presença de Jesus no Sacrário. Deixamos Deus penetrar em nosso ser na Eucaristia.  Fazemos crescer o verdadeiro centro de nossa vida. Favorecemos o sonho e o desejo de crescer e abraçamos os verdadeiros valores da existência. Usamos de nossa liberdade para acolher a graça e o agir de Deus em nós. Assumimos a realidade da vida e sabemos, como nos diz Tomás de Aquino, que nos conhecemos a nós mesmos, conhecendo a realidade do mundo. Abrimos horizontes de vida e felicidade. A religião ajuda a abertura do nosso “eu” para um horizonte transcendente e fornece o sentido último de nós mesmos e da realidade externa. Vencemos o narcisismo e nos abrimos para Deus e para os outros.  

Outra coisa importante é a leitura espiritual. Ler bons livros preenche o nosso cérebro e também a nosso coração. Uma boa leitura, além de instruir, nos leva a crescer em todos os sentidos e ajuda no ministério da pregação. Parece que a leitura está caindo da moda nestes últimos tempos.

PERGUNTAS:

  1. Você abre um espaço, mesmo pequeno, para a contemplação?
  2. Você lê livros espirituais com frequência?
  3. Você aprecia a natureza e as flores?