P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
As causas de transformação do Ser
Antes de apresentar a tese desta seção, é necessário esclarecer um ponto crítico do artigo anterior. Um amigo me escreveu afirmando que não pode existir vida consagrada sem o seguimento de Jesus. Concordo plenamente: a vida religiosa consagrada só tem sentido se for cristocêntrica, isto é, se estiver enraizada no seguimento radical de Cristo. Minha intenção, no entanto, foi outra: provocar reflexão sobre a teologia da sequela pós-Concílio Vaticano II, que, em sua aplicação prática, acabou deslizando para uma compreensão demasiadamente sociológica da noção de “inserção”.
Feito este esclarecimento, avancemos para o tema central: quais foram as causas que levaram o “Ser” a uma transformação radical? Aqui, “Ser” refere-se ao sujeito humano, aquele que vive no mundo e busca sentido para sua existência. Não se trata do ser transcendente, mas do ser que procura o transcendente. Heidegger, por exemplo, descreve o homem como um ser lançado no mundo (Dasein), que, diante da angústia, constrói seu projeto de vida em busca de sentido.
Com a chegada da pós-modernidade, o Ser deixou de encontrar realização nas antigas metanarrativas que explicavam o universo humano. Houve uma despedida progressiva das estruturas sólidas que sustentavam a existência. O Ocidente tornou-se, assim, a “terra do poente” do Ser.
Segundo Gianni Vattimo, o Ser começou a se transformar quando a velha metafísica perdeu hegemonia como discurso de sentido. A ideia de uma história única, escrita pelo protótipo europeu de civilização, enfraqueceu à medida que culturas locais — sobretudo do chamado “terceiro mundo” — ganharam voz por meio dos meios de comunicação de massa, expondo uma nova visão plural da realidade. Nesse contexto, todo ponto de vista é apenas “a vista de um ponto”. Não há mais espaço para homogeneidade ou totalitarismos.
Vattimo chamará essa transformação de Pensiero Debole (pensamento fraco) e encontrará na mensagem cristã da encarnação do Verbo Divino a sua transcrição. Ele entende que a Kénosis de Jesus é a perda do poder metafísico e uma inserção na realidade a partir de uma forma frágil de vida. Para o filósofo italiano, a kénosis vence a metafísica, pois se distancia constantemente das estruturas fortes, seja da religião, seja do poder. Esta é a nova forma de vida que o ser assume: a fragilidade.
Esse estilo frágil do Ser hoje se reflete no perfil dos consagrados. O discurso clássico sobre o Transcendente, sustentado por uma linguagem erudita e abstrata, já não encontra espaço entre eles. Prefere-se falar de leveza e de menos estruturas burocráticas. O estilo de vida se afasta das regras, constituições e regulamentos — linguagens objetivas que não correspondem à subjetividade da nova forma de ser. O consagrado contemporâneo busca informações rápidas nas redes sociais e na inteligência artificial. O tempo de permanecer longamente em bibliotecas, meditando sobre uma ideia ou argumento, parece ter ficado para trás. Agora, a nova face do Ser procura curtidas (likes) e a adrenalina da dopamina, o que rouba a antiga capacidade espiritual de contemplação e meditação, tão própria das origens da vida consagrada.
O consagrado atual ama o universo digital: navega por horas na rede enquanto almoça, janta, conversa com o irmão de comunidade e até mesmo enquanto reza na capela, respondendo mensagens instantâneas. Faz tudo ao mesmo tempo, mas sua percepção é dispersa. O olhar já não contempla nem medita, pois a “atenção ao momento presente” exige tempo, esforço, renúncia, solidão e empenho pessoal.
Esse novo fenômeno desafia a Vida Religiosa Consagrada a tomar decisões sérias sobre seu futuro. Ela se encontra diante de uma encruzilhada: como seguir Jesus com radicalidade — palavra pesada para o pensamento frágil — neste cenário atual? A questão é decisiva e exige que a própria linguagem humana se reinvente. Antes, quando a metafísica dominava, a linguagem era abstrata e erudita; agora, precisa ser concreta, acessível e persuasiva, pois o consagrado de hoje se cansa facilmente e deseja resultados imediatos, sem grande interesse em processos longos.
Outro exemplo: muitos consagrados sentem desconforto diante da “lógica do dom”, pois a gratuidade implica entregar a própria vida sem esperar nada em troca. Na cultura atual, tudo se orienta para ganhar, construir, conquistar. Não é isso que revelam as instituições e obras religiosas que se adaptam às exigências do mercado? Fala-se em acompanhar a lógica e o marketing, sob pena de ver projetos fracassarem. Antes, a vida consagrada caminhava na contramão; hoje, parece obrigada a alinhar-se às demandas do mercado.
Essa reviravolta é, ao mesmo tempo, ontológica — mudou radicalmente o modo de pensar e agir do sujeito — e sociológica — o mundo já não é o mesmo em que nasceram as ordens e congregações. O desafio é repensar a Vida Religiosa Consagrada a partir de um novo caminho. Será possível vivê-la dentro dessa encruzilhada da pós-modernidade? Que transformação ela deve sofrer para testemunhar Jesus neste contexto? E qual deve ser esse testemunho? Essas perguntas serão aprofundadas no próximo capítulo.