O que está acontecendo com a Vida Religiosa Consagrada? (III)

P. Ademir Guedes Azevedo, cp

A transformação radical do «Ser»

Nos dois últimos artigos foi percorrido, em linhas gerais, o caminho das origens da VRC até o período pós-Vaticano II. Como chave de leitura, estas duas análises anteriores se concentraram em três elementos bases: a espiritualidade, a fraternidade, e a missão, onde sublinhou-se, respectivamente, os três ciclos principais da VRC: o monaquismo, as ordens mendicantes e a vida religiosa moderna ou apostólica. Duas conclusões podem-se extrair até agora: 1ª) há uma VRC que pertence às origens e 2ª) houve uma nova interpretação da VRC das origens através do Vaticano II chamada de teologia da Sequela Christi. Porém, nesta terceira parte, levanta-se uma pergunta crucial: por que a VRC tão radical evangelicamente, seja em suas origens que em sua teologia da Sequela, anda ultimamente afogada em uma crise? Por que não brilha tanto como em seus primórdios e nas décadas pós-vaticano II? A nossa hipótese é a seguinte: o sujeito de hoje e a sociedade atual sofreram uma transformação de ordem ontológica que não se pode mais nem falar de retorno às origens nem de teologia da Sequela Christi. É preciso, primeiramente, entender o «Ser» como ele está aparecendo em seu novo fenômeno: «Esqueçam o que se foi; não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova! Ela já está surgindo! Vocês não o percebem?» (Is 43,18-19). Em que consiste esta coisa nova?

Para acolher a nova transformação do sujeito (Ser) é necessário libertar-se de um argumento muito antigo que, de certa forma, acaba transmitindo uma esperança aos consagrados, mas no fundo é algo falso. O argumento é o seguinte: a crise atual reside no esquecimento das origens, em outras palavras: a causa do problema consiste no abismo existente entre a intuição original que tiveram os fundadores e a realidade atual. Pois bem, esse é um truque mental. Diante dele, ocorre uma retrotopia: o presente está errado e deve ser corrigido através de um retorno às origens. Esta tese foi fortemente defendida pelo teólogo jesuíta José M. Castilho. Ele deixa transparecer uma visão essencialista dos carismas, ou seja: uma realidade que não pode mudar. Castilho concebe a VRC somente a partir da intuição primeira dos padres do deserto (cf. Castilho, O futuro da vida religiosa consagrada, 166-171). Ele acaba ficando refém de uma prisão platônica, regida por um conceito rígido e estático de VRC. Essa é, inclusive, uma das causas dos pessimismos e do medo que afeta os consagrados: julgam a situação atual, com os olhos do passado e, ao constatar a distância das fontes com a realidade, não conseguem mais encontrar um caminho alternativo para viver a crise atual.

É aqui que este artigo inicia o caminho de construção de uma nova proposta: o «Ser» atual, graças a chamada modernidade tardia (pós-modernidade) não possui mais aquela armadura ontológica que o defendia do mundo. Agora, ele está despido de sua proteção metafísica e sofre as influências da realidade: ser e realidade estão misturados, não mais separados. Um se deixa tocar pelo outro. A crise da VRC deve ser interpretada a partir desta constatação: a civilização ocidental atual transformou radicalmente a natureza do «Ser» de tal forma que as ideias essencialistas (platônicas) não conseguem mais adaptar a realidade ao seu domínio, pois o sujeito (o Ser) está com uma nova sensibilidade e não consegue mais vencer a tentação do canto das sereias que estão no mundo. Eis a raiz da crise.

Se, para enfrentar a crise, a volta às origens seria a solução, então ocorreria uma violência para com esta nova sensibilidade do Ser, pois nas origens existia uma metafísica de combate e renúncia absoluta ao mundo, algo que hoje soaria estranho; da mesma forma, se se insiste na teologia da Sequela Christi com a sua radical inserção na realidade e em seus problemas, então parece uma desmotivação vocacional a nova geração de consagrados que temem desafios e aventuras ousadas. A questão agora é a seguinte: como nasceu esta nova sensibilidade que transformou o «Ser»? Por que a chamada radicalidade do seguimento, que dava a identidade da VRC, não é tão clara e evidente como antes? Este será o próximo capítulo deste estudo.