29º Domingo do Tempo Comum – Ano A

A quem pertence o meu coração?

P. Ademir Guedes Azevedo, cp.

Viver como cristão não é apenas professar uma fé interior: é assumir um modo de existir que possui consequências éticas, históricas e políticas. A espiritualidade cristã sempre situou essa verdade dentro da chamada teologia política, nascida para recordar o núcleo da nossa fé: o mistério da encarnação. Deus não é uma ideia abstrata; Ele entrou na história humana. Em Jesus, a realidade divina assumiu a carne, o tempo, o conflito, a dor e a esperança dos homens. Por isso, quem segue Cristo não vive indiferente ao mundo: torna-se sinal vivo da ação de Deus que se encarna e transforma.

Viver, para o cristão, é abrir os olhos e agir. É comprometer-se com uma história que caminha para o futuro prometido, onde «não haverá mais choro nem dor». Mas existe um critério decisivo para atravessar essa história com fidelidade: o coração deve permanecer voltado ao único Deus. Um coração dividido cai na idolatria; um coração mascarado cai na hipocrisia.

É exatamente isso que a liturgia deste domingo nos ensina. O Evangelho apresenta o debate entre Jesus, alguns fariseus e partidários de Herodes sobre o tributo devido ao imperador Tibério César. A resposta de Jesus é de uma força profética, política e profundamente religiosa: «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21). O que significa essa palavra dentro do mistério da revelação?

Toda a Escritura é um chamado a retornar ao único Deus. A primeira leitura recorda isso quando o Senhor escolhe Ciro, um rei estrangeiro, para libertar Israel do exílio. Deus o unge para que o povo compreenda, mais uma vez, que os falsos deuses não libertam, mas oprimem: «Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus. Armei-te guerreiro, sem me reconheceres, para que todos saibam, do oriente ao ocidente, que fora de mim outro não existe. Eu sou o Senhor, não há outro» (Is 45,5-6).

Jesus viveu inteiramente sob essa primazia: fazer a vontade do único Deus, bom e justo. Então, o que aconteceu com Israel? Por que fariseus e herodianos merecem a sentença de Jesus? Porque haviam caído na idolatria. Colocavam o imperador, e seu sistema opressor, no centro. Não era apenas a figura de César, mas o modo como seu poder esmagava os pequenos. Jesus, então, chama o povo a retornar ao Deus que não oprime, ao Deus que Ele chamava de Abbá: o Deus da ternura, que criou tudo para que ninguém padecesse necessidade.

«Dar a Deus o que é de Deus» significa assumir o projeto que Jesus veio revelar: as bem-aventuranças, a hospitalidade que nasce da compaixão, a cruz que redime por amor e perdão. Esse é o único Deus digno do coração humano.

A ação cristã no mundo é ser sal e luz. As realidades terrenas não estão fora do horizonte da fé; ao contrário, o cristão é chamado a ser fermento que faz crescer o que é bom, justo e nobre. Mas sempre fiel ao projeto do Deus verdadeiro revelado por Jesus. Por isso, luta para não cair na idolatria, seja ela política, econômica ou espiritual. Assim o Evangelho é anunciado de modo testemunhal.

Paulo confirma isso na segunda leitura: «Porque o nosso evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo; e isso, com toda a abundância» (1 Ts 1,5b). Foi a esse Evangelho, essa Boa Notícia, que Jesus entregou toda a sua vida. Por isso, nenhum projeto humano, político ou ideológico pode nos afastar dessa fidelidade.

A liturgia nos convida a um exame de consciência sincero: a quem serve o meu coração? A qual projeto eu me entrego para gerar mais vida, justiça e partilha? Existe idolatria aos «césares» de hoje? Talvez o culto às leis do mercado, ao poder, ao consumo ou ao sucesso esteja sufocando o Deus de Jesus dentro de nós. Como retornar ao único Deus? Aproximando-nos Dele. E quanto mais nos aproximamos, mais humanos nos tornamos, mais semelhantes a Jesus.

Que este domingo reacenda em nós o desejo de entregar a Deus o que é Dele: o coração inteiro, livre e fiel.